Jornada cívica na Lombada evoca Revolta das Águas

A história remonta ao século passado e está ligada à evolução político-administrativa daquele recanto da Ponta do Sol.

lombada2.jpgPassou a revolta e a resistência dos populares da Lombada. Mas ficou a memória histórica dos acontecimentos que serão evocados

Existem também algumas trovas em memória dessa luta. Na campa da “Sãozinha”, ficou para a posteridade a quadra: “0 sangue que derramaste/ nas águas livres correm/ Ó Sãozinha, tu tombaste/ mas o teu povo venceu.”

A população da Lombada não tem memória curta. E vai demonstrá-lo na jornada cívica que está a preparar para assinalar os “45 anos da Revolta das Águas”, no dia 21 do corrente mês. No passado, ficou a luta por um objectivo: a posse das águas. No presente, a intenção de mais uma lição de cidadania da Lombada e a necessidade de prestar homenagem a gente simples que fez História.

Gabriela Relva é a dinamizadora destas comemorações. A 19 de Agosto, está prevista uma romagem ao denominado “Cabo da Levada”, onde será celebrada missa em memória de Belmira da Conceição Gonçalves, mais conhecida pela ‘Sãozinha’, assassinada pela polícia no auge da contestação popular, a 21 de Agosto de 1962. Gabriela Relva é irmã da ‘Sãozinha’ e, também em memória de todos os que deram a cara à luta, prepara as comemorações da efeméride.

No dia 21 de Agosto, será celebrada missa na Igreja da Lombada, pelas 19 horas, e uma hora depois, está programada a inauguração de um monumento em homenagem a todos os que lutaram pela posse das águas, na Levada do Moinho, junto à Igreja. Um acto simbólico que Gabriela Relva pretende que fique para o futuro, em memória de uma luta histórica.

Em data ainda por anunciar, Gabriela Relva prepara a realização de uma conferência sobre “a revolta das águas da Lombada”. Um tema que é muito caro aos naturais da Lombada, pelo que a sua mensagem precisa sempre de ser actualizada, particularmente numa terra que tem muitos agricultores que dependem da água de rega.

A história remonta ao século passado e está ligada à evolução político-administrativa daquele recanto da Ponta do Sol: primeiro, um morgadio, depois propriedade de uma família inglesa e, mais tarde, do Estado que foi depois vendendo os terrenos, na década de 30, e respectivas veredas e água de rega aos populares. Estes, com grandes sacrifícios, foram pagando a titularidade desses terrenos, até que se confrontaram com a decisão oficial de ver a água, que lhes pertencia, desviada para outras paragens. No fundo, o governo tentou gerir um bem que tinha sido pago pela população. Seguiu-se um longo período de resistência. Durante três meses, entre 6 de Maio e 21 de Agosto de 1962, a gente da Lombada bateu-se pela sua água, guardando dia e noite o chamado “Cabo da Levada” (onde começa a água que é canalizada para a Ribeira do Moinho), apesar da repressão policial. No dia 21 de Agosto, mais de 200 polícias rumaram à Lombada, espancaram e prenderam dezenas de populares, entre os quais a jovem estudante “Sãozinha”, de 17 anos de idade, abatida a tiro.

Após anos e anos de luta e de persistência, a população da Lombada fez vingar os seus direitos. Ainda hoje, segundo Gabriela Relva, “os proprietários dos terrenos continuam a gerir a água através da Associação de Regantes da Levada do Moinho da Lombada e do Lugar de Baixo.”

Para hoje está prevista uma romagem ao denominado “Cabo da Levada”, onde será celebrada uma missa.

DN – 19/08/07


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