Lombada dos Esmeraldos (XV) – A Venda das Propriedades

Como já ficou ligeiramente esboçado, a casa dos condes do Carvalhal da Lombada, apesar de ser uma das mais opulentas de todo o país, não pôde suportar o choque da vida perdulária e faustosa do seu chefe e mais ainda talvez os desencontrados embates duma pouco cuidada e escrupulosa administração. Recorria-se com frequência ao empréstimo, e a Companhia de Crédito Predial Português, que era um grande credor a temer, pôs em praça judicial a maior parte das propriedades, que aquela grande casa possuía em quase todas as freguesias da Madeira.

Nessa altura, afirmam-no, vários contemporâneos do facto, teria sido relativamente facial conjurar a derrocada, se uma administração mais sensata e esclarecida fizesse sentir a sua benéfica acção na gerência dos diversos negócios que lhe estavam confiados. As terras que formam os importantes sítios da Lombada dos Esmeraldos e do Lugar de Baixo foram arrematados em hasta pública, no dia 17 de Dezembro de 1893, pela firma comercial estrangeira da praça do Funchal A. Giorgi & C.ª, por uma quantia pouco superior a cem contos de reis. Atravessava então o arquipélago uma grave crise económica com grande falta de numerário e de suficientes créditos na praça, e não tendo havido o previdente cuidado de evitar que as propriedades da casa Carvalhal fossem praceadas em vastas extensões de terrenos, poucos puderam aventurar-se à licitação dessas terras, sendo por isso quase todas vendidas por preços muito inferiores ao do seu verdadeiro valor. As propriedades da Ponta do Sol, que durante um período de tempo superior a quatro séculos, estiveram na administração e usufruto dos sucessores de João Esmeraldo transitaram para a posse de pessoas estranhas, como então aconteceu com tantas outras terras que os Carvalhais possuíam nesta ilha, no continente português e nos arquipélagos dos Açores e das Canárias, sendo caso para recordar o velho proloquio latino: Sic transit gloria mundi.

O conselheiro Aires de Ornelas de Vasconcelos, último representante da casa vinculada do Vale da Bica ou do Jangão, resolveu vender as terras que constituíam o antigo morgadio, as quais, como as do Santo Espírito, estiveram também durante séculos na posse dos seus antepassados. Para esse fim, organizou-se uma sociedade de vários indivíduos, que realizou a compra total da propriedade, fazendo em seguida a revenda das diversas parcelas aos próprios parceiros agrícolas que as cultivavam. 0 Conselheiro Aires de Ornelas não teve a vida brilhante e aparatosa do segundo Conde do Carvalhal, mas a sua situação especial no nosso país como Lugar-Tenente do rei D. Manuel, obrigando-o a frequentes e dispendiosas viagens ao estrangeiro, apressou a ruína da importante casa que herdara de seus maiores e que desinteressadamente pusera a favor da causa, que ele julgara um indeclinável dever defender a todo o transe. Esta inconfidência, se como tal pode ser considerada, só serve para honrar e enaltecer a memória do conselheiro Aires de Ornelas, que ainda os adversários das instituições monarquias não deixarão de admirar e respeitar devidamente.

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