Lombada dos Esmeraldos (XIV) – Administradores do morgadio do Vale da Bica

Primeiro Administrador: João Esmeraldo, filho do instituidor João Esmeraldo e de sua primeira mulher D. Joana Gonçalves da Câmara. Consentindo depois da morte de seu pai em fazer novas partilhas com sua madrasta D. Águeda de Abreu e com seu irmão Cristóvão Esmeraldo, perdeu a grande propriedade do Lugar de Baixo, que fazia parte integrante da instituição vincular do Vale da Bica, ficando esta num grande plano de inferioridade relativamente à outra corno já se acha referido noutro capitulo. Distinguiu-se no norte de Africa como valente guerreiro e dele falam com louvor Gaspar Frutuoso nas Saudades da Terra, Faria e Sousa na Africa Portuguesa e Manuel Tomás na Insulana. Casou com D. Filipa de Brito, filha de João Mendes de Brito, herdando de seu pai a administração do importante morgadio da Apresentação, na Ribeira Brava.


Segundo Administrador: D. Antónia Esmeraldo, filha do anterior, que casou com seu primo António Esmeraldo, segundo administrador do morgado do Santo Espírito, ficando deste modo reunidas as duas casas vinculadas. Não deixou descendência.

Terceiro Administrador: António Esmeraldo, marido da precedente, que herdou este morgado por morte de sua mulher, continuando na administração dos dois vínculos e morrendo, sem geração, no ano de 1545.

Quarto Administrador: Cristóvão Esmeraldo, pai do anterior, que entrou nesta administração por morte de seu filho e teve também a do morgadio do Santo Espírito.

Quinto Administrador: João Esmeraldo de Atouguia, filho segundo do precedente, que foi terceiro administrador do Santo Espírito, usufruindo ambos os vínculos. Entrou em 1555 na administração do morgado do Vale da Bica.

Sexto Administrador:
Francisco Gonçalves da Câmara, genro e sobrinho do anterior, que casou com D. Isabel Esmeraldo, não deixando descendentes.

Sétimo Administrador: Jorge da Câmara Esmeraldo, irmão do precedente administrador Francisco Gonçalves. A posse de Jorge da Câmara foi impugnada e por esse motivo correram longas demandas, vindo finalmente a suceder nesta administração o seu filho, que se segue.

Oitavo Administrador: António de Carvalhal Esmeraldo, filho do anterior, que morreu no ano de 1699, sem sucessor legitimo. Foi este que construiu a capela de Nossa Senhora da Piedade, no sítio do Jangão, pouco antes de 1679.

Nono Administrador: Aires de Ornelas de Vasconcelos (1677-1737) sobrinho do precedente, que era o oitavo administrador do importante morgadio do Caniço, cuja instituição data dos fins do século XV. Era moço fidalgo da Casa Real e Patrão-Mór da Ribeira. Casou com D. Cecília Maria Madalena de Aguiar França, herdeira duns vínculos no Porto Moniz e na Calheta. 0 morgadio do Vale da Bica entrou na casa vinculada dos Ornelas no ano de 1699.

Décimo Administrador: Agostinho António de Ornelas de Vasconcelos, (1718-1774) filho do anterior. Mostrando-se hostil à política de Pombal, que tinha como representante neste arquipélago o sobrinho do marquês o governador e capitão-general João António de Sá Pereira, foi por este desterrado para as terras do Caniço e ali faleceu no ano de 1774, sendo sepultado na capela de Nossa Senhora da Consolação de que era padroeiro.

Décimo Primeiro Administrador: Francisco Xavier de Ornelas de Vasconcelos, (1746-1796) filho do precedente, que foi pessoa muito considerada no meio social madeirense pelas suas qualidades de carácter e vasta cultura intelectual.

Décimo Segundo Administrador: Agostinho de Ornelas de Vasconcelos (1774-1810), sendo filho do anterior e tendo casado com D. Luísa Júlia de Castelo Branco.

Décimo Terceiro Administrador: Aires de Ornelas, (1801-1828) filho do anterior e que foi casado com D. Ana da Câmara Leme.

Décimo Quarto Administrador: Aires de Ornelas de Vasconcelos, tio do anterior (1779-1852).

Décimo Quinto Administrador: Conselheiro Agostinho de Ornelas de Vasconcelos, filho do precedente, que nasceu no Funchal em 1836 e morreu na Alemanha em 1901.

Bacharel em direito, deputado, par do reino, diplomata, escritor e académico, foi um dos mais distintos madeirenses do século XIX. Da pequena biografia que dele deixámos escrita no Elucidário Madeirense, vamos extratar alguns períodos: «Na sua longa carreira como funcionário do Ministério do Negócios Estrangeiros, deu sempre provas eloquentes da robustez da sua inteligência, da sua grande ilustração e das raras qualidades de diplomata, que o distinguiam e o tornavam um verdadeiro homem de estado, sendo por isso considerado como um dos mais acreditados membros do corpo diplomático português.

Também trilhou as tortuosas veredas da política portuguesa. Saiu, porém, incólume e sem mancha desse tremedal, em que tantos chafurdam a pureza das suas convicções e até a própria dignidade. Foi eleito deputado pela Madeira para as legislaturas de 1868 a 1869, 1869 a 1870, 1870 a 1871 e 1871 a 1874, sendo por carta régia de 16 de Maio deste último ano nomeado par do reino. Distinguiu-se em ambas as câmaras como parlamentar de grandes méritos, assinalando-se sempre nos seus discursos pela mais perfeita urbanidade, de par com uma notável correcção de forma. Não era, sem dúvida, um tribuno que arrebatasse os ouvintes em catadupas de eloquência, mas um orador fluente, correcto e conhecedor dos assuntos que discutia, sendo a sua palavra sempre escutada com a maior atenção por toda a câmara. Entre os discursos que proferiu em ambas as casas do parlamento, alguns se contam como notáveis, devendo especializar-se os que pronunciou acerca do padroado da Índia e missões ultramarinas.

Foi, como dissemos, um apaixonado cultor das ciências e das letras, sendo na verdade o seu mais constante empenho enriquecer o seu espírito com novos conhecimentos, hauridos quotidianamente em largos estudos e demoradas leituras. Tendo uma brilhante inteligência, servida por uma assombrosa memória, possuía uma não vulgar erudição sobre todos os ramos do saber humano, para o que não pouco contribuía o conhecimento de várias línguas em que era versado, incluindo a própria língua latina.

Deu-nos, como literato, provas incontestáveis do seu valor nos escritos que deixou, mostrando que poderia ter alcançado um nome honroso na história do seu país, sede todo se houvera dedicado à carreira das letras.

A obra-prima de Goethe, a famosa tragédia o Fausto, era pouco menos do que desconhecida entre nós. 0 Conselheiro Agostinho de Ornelas abalançara-as à arriscada empresa de trasladar em vernáculo o mais admirável produto, da literatura alemã. Árduo e difícil trabalho era esse para o nosso ilustre biografado, que não sendo um poeta quis traduzir em verso português a obra genial do maior poeta da Alemanha. A versão ressentiu-se dessa circunstância, e força é confessar que a forma poética nem sempre saia isenta de imperfeições. Muitas vezes; essas imperfeições obedeceram ao desejo, elevado até ao mais apurado escrúpulo, de traduzir fielmente o pensamento de Goethe, embora com evidente sacrifício da forma. A tradução de António Feliciano de Castilho, que apareceu mais tarde, é sem duvida correctíssima e ornada de verdadeiras galas poéticas, mas feita sobre uma imperfeita versão francesa e com os arrojos e liberdades do seu estro de primorosíssimo poeta, distancia-se com alguma frequência do original alemão, parecendo ás vezes, antes uma paráfrase do que uma verdadeira tradução. Não faltam críticos que prefiram a versão do Conselheiro Ornelas à de Castilho, por ser feita sobre o original alemão e com um inexcedível escrúpulo.

É sem dúvida e apesar dos seus defeitos um trabalho de valor, que muito abona os seus méritos literários.

Em 1881 publicou-se na porta um grosso volume intitulado Obras de D. Ayres de Ornelas de Vasconcelos, que contém os diversos escritos do antigo e inolvidável bispo desta diocese, que era irmão do conselheiro Agostinho Ornelas. Esses belos escritos vêem precedida larga e primorosa biografia do ilustre prelado, que ocupa perto de 200 páginas do livro, e que no dizer dum distinto escritor e abalizado lente da Universidade, foi escrita e pena de ouro. Traçou essa biografia verdadeiro modelo linguagem e que tem um acentuado sabor clássico conselheiro Agostinho de Ornelas.

Em 1892, por ocasião do centenário de Colombo publicou uma interessante Memória sobre a residência de Christovan Colombo na Ilha da Madeira, que foi incluída no volume Memórias, que a Academia Real das Ciências, de Lisboa fez publicar para celebrar aquele centenário.

Por todos esses títulos, foi eleito membro daquela Academia, tendo sido um dos sócios por ela nomeados para organizar a publicação das citadas Memórias. Era também membro de outras sociedades cientificas e literárias, tanto nacionais como estrangeiras.

Desempenhou distintamente diversas comissões de serviço público de alta importância, como a de representar Portugal nas festas do centenário de Colombo em Madrid, e a de delegado do nosso país na célebre conferência da Haia realizada em 1898.

Tinha, entre outras, as seguintes condecorações: as gran-cruzes de Carlos 3.°, de Espanha, de S. Gregório Magno, de Roma, da Coroa de S. Estanislau, da Prússia, grande oficial da Legião de Honra, comendador e cavaleiro de S. Tiago, comendador da ordem de Alberto o Valoroso, da Saxónia, da Águia Vermelha, da Prússia, da Imperial Ordem da Rosa, do Brasil, etc.

Morreu a 6 de Setembro de 1901 em Niedervalluf, Alemanha, quando exercia o importante cargo de ministro plenipotenciário de Portugal, na Rússia. (31)

Ultimo Administrador: 0 conselheiro Aires de Ornelas de Vasconcelos foi o último possuidor das terras do morgadio do Vale da Bica, mas não teve propriamente a administração deste antigo vinculo, porque ao tempo da morte de seu pai já estavam abolidas todas as instituições vinculares do nosso país. Filho primogénito do décimo quinto administrador Agostinho de Ornelas de Vasconcelos e D. Maria Joaquina Saldanha da Gama de Ornelas, filha dos condes da Ponte, herdou todos os bens que constituíam este morgadio, tendo sido o último representante da família que os possuía, pois que no ano de 1920 procedeu à venda total desses mesmos bens aos caseiros e meeiras que o agricultavam. Nasceu na freguesia da Camacha, desta ilha a 5 de Março de 1866 e faleceu em Lisboa a 14 de Dezembro de 1930. Seguiu a carreira das armas, em que notavelmente se distinguiu, e foi deputado, par do reino, ministro de estado, revelando sempre os fulgurantes dotes duma inteligência privilegiada e duma vasta cultura intelectual de par com as mais firmes e austeras qualidades de carácter:

Deixou vários livros e opúsculos, especialmente consagrados a assuntos militares e coloniais, em que era um mestre consumado. No Elucidário Madeirense, (II-250 e seg.) deixamos esboçada uma ligeira biografia do conselheiro Aires de Ornelas.

(31) Membro duma das mais ilustres famílias madeirenses e irmão do 15.° administrador deste morgadio do Vale da Bica foi o arcebispo de Goa D. Aires de Ornelas de Vasconcelos, que nasceu no Funchal no ano de 1837 e faleceu em Lisboa a 28 de Novembro de 1880. Pelas suas eminentes virtudes, talento superior, vasta cultura e acendrado zelo apostolico era considerado um dos maiores prelados do seu tempo, não só de Portugal como de toda a cristandade.
Abalizado teólogo, distinto poliglota, escritor primoroso, dotado do mais fino e cativante trato, generoso e hospitaleiro, sempre esquecido dos seus pergaminhos e da alta hierarquia do seu cargo, conquistou em Goa e na Índia Inglesa as mais gerais simpatias e admirações, que ainda hoje, passado já meio século, são relembradas com o maior respeito e carinho no meio das populações indianas. Reunidos os seus escritos, foram publicados num volume de 538 pag., sob o título de «Obras de D. Ayres de Ornellas de Vasconcellos», Porto, 1881, e precedidos dum brilhante estudo biográfico, escrito pelo conselheiro Agostinho de Ornelas, irmão do arcebispo, de quem no texto nos ocupamos.

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