Lombada dos Esmeraldos (XIII) – Administradores do Morgadio do Santo Espírito

O primeiro administrador desta casa vinculada foi Cristóvão Esmeraldo, filho do instituidor João Esmeraldo o Velho e de sua segunda mulher D. Agueda de Abreu. Nasceu por 1498, tendo-se afirmado que João Esmeraldo dera ao filho o nome de Cristóvão, como preito de homenagem e de devotada estima ao descobridor da América, ao tempo já celebrado navegador, havendo então realizado a sua terceira viagem às terras do Novo Mundo (29).


De Cristóvão Esmeraldo refere pitorescamente o historiador das Ilhas que « … o mais do tempo andava na cidade do Funchal sobre uma mula muito formosa, com oito homens detrás de si, quatro de capa e quatro mancebos em corpo, filhos de homens honrados muito bem tratados; e trazia grande contenda com o capitam do Funchal sobre quem seria Próvedor d’Alfandega d’El-Rey, que he uma rica cousa de renda de sua Alteza, e ricas casarias». Segundo nos informa o Elucidário Madeirense (1- 33) obteve Cristovão Esmeraldo a nomeação de Provedor da Alfandega no ano de 1550 e teria certamente moradia no actual e ainda aparatoso edifício daquela repartição, construído no primeiro quartel do século XVI e cujo andar nobre era destinado à residência dos Provedores, sendo certamente a esta construção que Gaspar Frutuoso, nos fins do século XVI, chamava «ricas casarias». Cristóvão Esmeraldo casou com D. Leonor de Atouguia, neta de Luiz Alvares da Costa, fundador do convento de São Francisco. Combateu em Marrocos, distinguindo-se como valente soldado. Tentou reunir os vínculos do Santo Espírito e do Vale da Bica, casando o seu filho primogénito e sucessor António Esmeraldo, que ainda não atingira a puberdade, com sua sobrinha D. Antónia Esmeraldo, filha herdeira de João Esmeraldo, como fica descrita no capítulo anterior.

Segundo Administrador: António Esmeraldo, filho do, precedente, que casou com sua prima D. Antónia Esmeraldo, filha herdeira e sucessora do administrador do morgado do Vale da Bica, ficando assim reunidas as duas casas vinculadas. Este casamento, que se realizou em Lisboa, provocou um ruidoso processo, como já deixámos referido. Não houve descendência.

Terceiro Administrador: João Esmeraldo, irmão do anterior, sucedeu nesta administração, tendo tido também a do vínculo do Vale da Bica. Casou com D. Ana Correia, filha de António Correia o Grande e morreu sem geração legitima, sendo seu sucessor no vinculo do Santo Espírito sua irmã D. Ana Esmeraldo.

Quarto Administrador: D. Ana Esmeraldo, irmã dos dois precedentes, que casou com António Carvalhal, conhecido pelo Sansão madeirense, em virtude da grande força muscular de que era dotado (30) Tinha muitas terras na freguesia da Ponta Delgada, que vinculou a favor de seus descendentes e aos quais se transmitiram, sendo o últimos possuidor delas o segundo Conde do Carvalhal. Com este casamento, entrou na descendência dos Esmeraldos o apelido Carvalhal, nome pelo qual se tornou mais conhecida esta antiga e nobre família madeirense.

Quinto Administrador: Pedro Ribeiro Esmeraldo, filho dos anteriores, cuja posse foi contestada e pleiteada nos tribunais, seguindo-se longas demandas. Casou com D. Joana de Noronha, filha herdeira de Francisco Gonçalves da Câmara.

Sexto Administrador: Francisco Gonçalves da Câmara, filho do precedente, que casou com a sua parenta D. Isabel Esmeraldo, filha bastarda do 3.° administrador. Não deixou descendência e morreu em 1630.

Sétimo Administrador:
Luís Esmeraldo de Atouguia, e Câmara, sobrinho de Francisco Gonçalves da Câmara 6.° administrador, que tomou posse do morgadio depois de renhidos processos judiciais e a que já nos referimos no capítulo Casa Solarenga. Matrimoniou-se com sua prima D. Isabel Esmeraldo e Câmara.

Oitavo Administrador: Cristóvão Esmeraldo de Atouguia e Câmara, fidalgo da Casa Real, que nasceu em 1665 e casou em 1697 com D. Helena Teresa de Castro, natural de Goa e filha de Aires Teles de Menezes, da casa dos Condes de Vila Pouca de Aguiar. No capítulo referente à capela do Santo Espírito, já nos ocupámos deste oitavo administrador do vínculo, por ter sido o reedificador dessa capela com a magnificência que deixámos descrita.

Nono Administrador: Luiz António Esmeraldo de Atouguia e Câmara Teles de Menezes, filho dos precedentes. Nasceu no Funchal a 10 de Maio de 1703 e casou em 1730 com D. Leonor Josefa de Vilhena, filha de Luís de Vasconcelos de Betencourt, morgado do Loreto.

Décimo Administrador: João Carvalhal Esmeraldo de Atouguia e Câmara, filho do nono administrador, tendo nascido a 3 de Setembro de 1733 e casado com D. Isabel Maria de Sá Acciaioli, filha do morgado Francisco Aurélio da Câmara Leme. Foi herdeiro da casa vinculada de sua tia D. Guiomar Madalena de Vilhena Betencourt de Sá Machado, possuidora de vários morgadios e a mais rica proprietária da Madeira e uma das maiores de todo o país. Morreu a 7 de Agosto de 1790 e foi sepultado na capela do Santo Espirito da Lombada dos Esmeraldos.

Décimo Primeiro Administrador: Luiz Vicente de Carvalhal Esmeraldo de Atouguia e Câmara, que casou com D. Ana Inácia Henriques de Vilhena, tendo falecido em 1798 sem deixar descendência. Lemos a seu respeito, num livro de linhagens, que foi «filho primogenito e herdeiro na administração de mais de dôze morgados … o que constitui o vassalo mais rico de bens patrimoniais de Portugal.»

Décimo Segundo Administrador: João José Xavier de Carvalhal Esmeraldo Vasconcelos de Atouguia Betencourt Sá Machado, irmão do precedente e primeiro Conde do Carvalhal da Lombada. Nasceu no Funchal a 7 de Março de 1778 e morreu na mesma cidade a 11 de Novembro de 1837, sendo sepultado na capela de São João Baptista da Quinta do Palheiro Ferreiro e tendo sido feita a trasladação dos seus restos mortais para o jazigo da família Carvalhal no cemitério das Angustias, pouco depois no ano de 1882. Em outro lugar deixámos exaradas a seu respeito as linhas que vão transcrever-se: Sucedeu na importante casa de seu irmão Luiz Vicente de Carvalhal Esmeraldo de Sá Machado, o qual, segundo afirma um distinto linhagista, «era senhor de mais de doze morgadios grandes, que o constituíam c vassalo mais rico em bens patrimoniais de Portugal». 0 Conde de Carvalhal foi, não só o mais abastado proprietário da Madeira, mas a sua casa era uma das primeiras do país, em que se tinham reunido muitos vínculos e morgadios, possuindo vastas propriedades em quase todas as freguesias desta ilha e ainda no continente do reino e nos Açores deixando além disso, por sua morte, mil e tantos contos de reis em vários estabelecimentos de crédito ingleses. Nur curioso documento oficial, dirigido pelo corregedor desta comarca ao governo da, metropole em 1823, se diz que o conde do Carvalhal tem «grandíssimos cabedais no banca de Londres e em caixa, e um avultadíssimo rendimento anual, que, na presente penúria da ilha, sobe ainda de duzentos a trezentos mil cruzados», o que para a época representava uma renda verdadeiramente colossal para este arquipélago.

Vivendo sem fausto nem ostentação, era no entretanto um homem de animo generoso e liberal, de que deu sobejas provas, sobretudo por ocasião de algumas crises por que passou a Madeira, tendo sido uma verdadeira providencia para esta terra, contribuindo poderosamente para debelar essas crises com a força do seu prestigio, da sua influencia e da sua grande fortuna. Arcou por vezes com a ganância desmedida dos negociantes de vinho, principalmente estrangeiros, que, mancomunando-se, faziam baixar os preços dos mostos com grande prejuízo dos pobres lavradores.

Afecto às ideias liberais, teve que emigrar para Inglaterra na corveta de guerra inglesa Alligator a 22 de Agosto: de 1828, quando a Madeira foi ocupada pelas tropas miguelistas. Em Londres foi não só o desvelado protector d madeirenses ali emigrados, mas socorreu generosamente todos os compatriotas que a ele se dirigiam, afirmando que nisso despendera muitas dezenas de contos de reis.

Estabelecido o governo constitucional, regressou a esta ilha em fins de 1834, e por carta régia de 13 de Setembro de 1835 foi nomeado governador civil deste arquipélago, tendo sido pouco antes, a 5 do mesmo mês e ano, agraciado com o titulo de conde do Carvalhal da Lombada. Os cuidados da administração da sua grande casa e mais ainda as doenças de que há muito sofria, afastaram-no dentro de poucos meses do governo do distrito, que muito violentado aceitara e unicamente para aceder aos desejos dos principais proprietários e influentes desta ilha.

Décimo Terceiro Administrador:
João Francisco da Câmara Carvalhal Esmeraldo de Atouguia Betencourt Sá Machado, sobrinho do primeiro Conde do Carvalhal, era filho de D. Ana Josefa da Câmara Carvalhal Esmeraldo, irmã do mesmo conde, e do morgado João Francisco d Câmara Leme. Nasceu este décimo terceiro administrador a 2 de Julho de 1801 e casou em 1822 cora D. Teresa Xavier Botelho, filha do distinto escritor e governador e capitão general da Madeira Sebastião Xavier Botelho, da casa dos condes de São Miguel. João Francisco da Câmara Esmeraldo era oficial do exército, moço fidalgo da Casa Real, comendador da Ordem de São Tiago e foi eleito deputado e senador por este arquipélago nos primeiros tempos do constitucionalismo. Morreu no mês de Abril de 1854.

Décimo Quarto e Ultimo Administrador: António Leandro da Câmara de Carvalhal Esmeraldo Atougui Betencourt Sá Machado, segundo conde do Carvalhal, que era filho dos precedentes, nasceu no Funchal a 6 de Abril de 1831, tendo falecido no Palácio de São Pedro d mesma cidade a 4 de Fevereiro de 1888. Herdeiro duma das mais opulentas casas nobres de Portugal e das maiores em bens territoriais, veio a falecer numa situação próxima da pobreza, chegando talvez a sentir os primeiros rebates da indigência, que se aproximava a passos agigantados. Foi o último administrador das terras vinculadas do Santo Espírito, que ainda em sua vida foram vendidas em hasta pública, como consequência duma administração insensata e ruinosa. Vamos também transcrever aqui as palavras que no Elucidário Madeirense, da nossa co-autoria, deixámos consagradas à sua memória: «Sem se notabilisar em nenhum ramo do saber humano, nem se ter evidenciado em acontecimentos que ficam registados na história, foi contudo, no dizer dum seu admirador e amigo, «um homem que em vida fora a personalidade mais simpática e mais finamente característica da aristocracia madeirense; cujo nome fora conhecido lá fora no alto mundo das grandes capitais entre as personagens mais ilustres, e cuja existência, ora remansosa e prudente, ora batida das tempestades e agitada dos desvarios da época, teve sempre a linha correcta da gentileza fidalga, as grandes expansões brilhantes de um belo espírito, servido por um temperamento de artista impressionável, ardente, nervoso generoso e bom. Em Paris, em Madrid, em Lisboa, nas festas esplêndidas, nos bailes principescos, nas corridas, nos jogos de sport, na ópera, nos gabinetes da Maison Doreé e do Café Inglês, no Bois, no Prado, nos touros, nas premieres, foi ele o correcto e brilhante fidalgo, o infatigável valsista, o atrevido sportsman, o profligo, o aventureiro viveur, levando a vida a grand train, distinto entre os mais distintos, amavel, elegante e prestigioso. Um dia o pano caiu sobre esse cenário deslumbrante. A realidade inexorável e fatal apagou essa constelação de prazeres falazes e perigosos. A razão fria e grave veiu sentar-se sobre as ruínas dessa existência estonteadora e capitosa do grande mundo, cheia de ilusões e de insónias, em que a vida e a fortuna se esvaem como o ténue fio de água no deserto árido e nú. E aquele que fora o herói dessa epopeia efémera feita de brilhantismos fugazes, de ilusões esplêndidas, de loucas prodigalidades, veio sentar-se â sombra do lar, até ali mudo e triste, abandonado e esquecido. Trazia a mesma distinção nativa, a mesma elegância própria, a gentil e cortês fidalguia do nome e da condição, mas muita ilusão de menos, muita decepção a mais e para sempre desbaratada a fortuna que irreflectidamente arrojará para aquele vértice enorme e insaciável. A realidade pesava sobre ele fatal, terrível e desapiedada.

Para tanto fausta e ostentação, chegando a ocupar um lugar de destaque naquelas capitais, mal podia acudir uma renda anual de cem contos de reis, que lhe dava a sua grande casa. Em Madrid, para assistir ao casamento duma princesa, mandou construir um carro que custou uma dúzia contos de reis, em Lisboa edificou um teatro junto da sua casa, onde representaram notabilidades e onde concorria a primeira sociedade da capital. Em Paris gastou fortunas com o deslumbramento da sua vida faustosa e perdulária… Ficaram celebres as brilhantes festas do Palheiro do Ferreiro, em que à mais alta e requintada distinção se reuniam as prodigalidades dum poderoso nababo. 0 Conde do Carvalhal veio expressamente à Madeira para receber o infante, depois rei, D. Luís, e tanto no palácio de S. Pedro como na quinta do Palheiro, admirou o futuro rei de Portugal os dotes de estremada fidalguia e da mais inexcedível distinção dum genuíno representante da velha aristocracia madeirense.

Na casa Carvalhal tinham-se reunido diversos vínculos ou morgadíos, sendo o mais importante o do Santo Espírito, na Lombada da Ponta do Sol. Deste morgado foi o 14.º e último administrador o 2.° Conde do Carvalhal, que também herdará a casa vincular instituída na freguesia da Ponta Delgada por Manuel Afonso Sanha e sua mulher D. Mécia de Carvalhal nos princípios do século XVI, e ainda os vínculos de Agua de Mel, do Paul do Mar, dos Lemes, etc., não contando com outros situados em diversos pontos da ilha e também nos Açores e no continente do reina. Possuía vastas propriedades em todas as freguesias da Madeira, chegando a ser a casa Carvalhal a segunda ou terceira do país em bens territoriais.

0 Conde de Carvalhal, entre outras comissões de serviço público, exerceu o lugar de presidente da Câmara Municipal do Funchal e tinha a gran-cruz da ordem de Isabel a Católica e outras condecorações estrangeiras.

Casará em 1854 com D. Matilde Montufar Infante, filha dos marqueses de Selva Alegre, em Espanha, e deste consórcio nasceram D. Maria da Câmara, que casou com o conde de Resende e D. Teresa da Câmara, condessa do Ribeiro Real.

Depois duma vida tão agitada, vieram a ruína, o infortúnio, a saudade e a doença defrontar-se com o herói de tantas aventuras. Lutou e lutou nobremente, mas…,. a morte derrubou-o ainda na idade pujante dos 56 anos.
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Bulhão Pato, nas suas Memórias, e ainda outros escritores contemporâneos do Conde do Carvalhal referem-se várias vezes ao ilustre titular e sempre com grande elogio e com o mais subido apreço.

(29) Vid Memória sobre a residência de Christovam Colombo na Ilha da Madeira por Agostinho de Ornelas, Lisboa, 1892.
(30) Gaspar Frutuoso, com aquela conhecida prolixidade que ás vezes dedica a assuntos de pequena monta, ocupa-se com largueza dos actos de valentia muscular praticados por António Carvalhal, pondo também em relevo as acções de generosa liberalidade com que recebia todos os que procuravam a sua casa, que era então a mais afamada e acolhedora existente em todo o norte da ilha. Era cavaleiro de Cristo e fidalgo escudeiro, tendo morrido no ano de 1598 e sido sepultado na Igreja do Senhor Bom Jesus da freguesia da Ponta Delgada.

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