Lombada dos Esmeraldos (XI) – As Capelas

Deve supor-se que na grande propriedade da Lombada, quando a sua exploração agrícola atingiu um apreciável desenvolvimento e se tornou o foco dum importante centro de população, se levantaria sem demora uma pequena capela, como geralmente sucedia nos recintos das fazendas povoadas, espalhadas em diversos pontos da Madeira. Teria sido, porventura, Rui Gonçalves da Câmara, o flamengo João Esmeraldo ou talvez os próprios habitantes deste povoado os edificadores da modesta edícula, cuja existência remontamos aos primeiros anos do terceiro quartel do século XV, sendo hoje impossível determinar com precisão o local em que fora construída e o nome da sua invocação.

Capela de Santo Amaro. Diz-nos o ilustre anotador das Saudades da Terra que João Esmeraldo o Velho instituiu a capela de Santo Amaro antes do ano de 1500, havendo ponderosos motivos para supor que esta foi posteriormente edificada àquela de que acima fazemos menção. Da primeira não restam vestígios e talvez tivesse sido demolida, afim de erguer-se, no seu próprio local, a igreja do Santo Espírito, como abaixo mais largamente se dirá. Da segunda existem ainda uns montões de antigos escombros, que bem denunciam a sua incontestável vetustez. Os restos de velhas paredes e umas características seteiras nelas abertas indicam-nos a antiguidade destas venerandas ruínas. O abandono a que foi votada e a sua quase completa destruição devem atribuir-se especialmente à construção da igreja do Santo Espírito, na primeira década do século XVI, que pela sua situação e largueza oferecia maiores comodidades dos habitantes do lugar. Não é para causar estranheza que havendo João Esmeraldo mandado edificar uma ampla e bem ornada igreja, fizesse convergir para ela as suas mais cuidadas atenções com prejuízo da capela de Santo Amaro, que anteriormente mandara construir. O mesmo aconteceu com os diversos sucessores na administração do vínculo do Santo Espírito, porque, desde há séculos, não se acha ela consagrada ao exercício do culto.

Capela do Santo Espírito. Como já deixámos dito, conjecturamos que tivesse sido, no próprio local da antiga ermida, que João Esmeraldo levantasse a nova capela, nos princípios do século XVI, que Gaspar Frutuoso, nos fins do mesmo século, chama enfaticamente igreja, e que, na verdade, como tal poderia ser considerada, se atendermos a certas condições do meio. O novo templo não recebeu apenas a ordinária e costumada bênção do Ritual, ministrada por um presbítero, mas teve a aparatosa sagração episcopal, o que deve atribuir-se à sua amplidão, à relativa importância do lugar e também, por certo, à categoria social do seu fundador. Foi o bispo de Tanger Dom João Lobo que procedeu no ano de 1508 à sua sagração, dizendo-se algures que viera expressamente à Madeira presidir à celebração dessa cerimónia religiosa, o que nos parece destituído de todo o fundamento. (24) Numa das paredes interiores da actual igreja, conserva-se uma lápide, porventura a mesma que se encontrava na antiga construção, onde se lêem as palavras seguintes: «Esta Igreja foi consagrada por Dó foam Lobo Bispo de Tãiere aos 27 de Agosto de 1508». Teve capelão privativo desde o tempo do seu fundador, como se vê dum documento atrás transcrito, constituindo a manutenção do seu culto um dos mais obrigatórios encargos pios do morgadio do Santo Espírito, havendo sempre os seus administradores guardado inalteravelmente os deveres que lhes eram impostos como padroeiros desta capela.

Decorridos dois séculos, era administrador da instituição vincular Cristóvão Esmeraldo de Atouguia e Câmara, moço fidalgo da casa real e uma das pessoas mais prestigiosas do meio social madeirense, que resolveu alargar as proporções da pequena igreja e orna-la com o mais aprimorado esmero, imprimindo-lhe a autentica feição duma capela de antigos paços reais, apesar do isolamento do lugar e da distancia a que se achava da cidade do Funchal: Demoliu a velha capela, que foi totalmente reedificada, dando-lhe maior amplidão, levantando-se nela cinco altares e sendo dotada com as mais primorosas decorações interiores no precioso trabalho de talha dourada, nas belas telas que revestem as paredes, no rico e artístico lambris de azulejos que cobre o rodapés do templo e na magistral esculturas das figuras que adornam os altares. Já alguém chamou a esta capela um pequeno museu de arte, e sendo na verdade um templo da fé cristã, não deixa de ser também um templo de «belas artes», em que a pintura, a escultura, a obra de entalhe e o azulejo têm uma condigna e artística representação, como já fica dito.

Os quadros a óleo não são, de certo, assinados por mestres conhecidos, mas oferecem-nos pinturas artísticas do mais correcto desenho, duma perfeita modelação e do mais harmonioso colorido, talvez copias de distintos cultores das escolas flamenga e italiana, tendo algumas delas sofrido já a profanação de incompetentes restaurações. As estátuas de São João, São Luís, Nossa Senhora da Conceição e de Cristo Crucificado constituem irrepreensíveis modelos de escultura sacra, em que insignes imaginários imprimiram toda a inspiração do seu génio e da sua ardente fé religiosa. 0 Magnifico lambris de azulejos, de dois metros de altura, que reveste completamente o fundo das paredes interiores, é um primoroso trabalho do tempo de D. João V, representando, em figuras alegóricas, os chamados Frutos do Espírito Santo, em que as virtudes cristãs da mansidão, da paz, da bondade, da ciência, da piedade, da sabedoria e da modéstia são postas em eloquente relevo, por expressivos e admiráveis simbolismos, de que aquelas figuras são portadoras. A obra de talha dourada, embora executada com esmero e de reconhecido valor artístico, está trabalhada no decadente estilo barroco, que tão generalizado se tornou no tempo da construção desta capela.

A reedificação da igreja do Santo Espírito ter-se-ia realizado no primeiro quartel do século XVIII lendo-se no limiar superior do pórtico a data de 1720, que parece ser a do ano do seu acabamento. Como já dissemos, é de presumir que o local escolhido tivesse sido o mesmo em que se erguia a demolida ermida, nas proximidades do velho solar e em sítio tão pitoresco e de tão dilatados horizontes, como aquele em que, ela se encontra. É possível que as decorações interiores não ficassem então inteiramente concluídas, pois que na face anterior do coro se diz que a igreja foi pintada no ano de 1768. 0 primeiro conde do Carvalhal procedeu ali a várias reparações e os seus últimos proprietários realizaram também importantes trabalhos de restauração, que determinaram o lançamento duma nova bênção, como se vê da inscrição: «Esta capela tendo sido reparada foi benzida novamente em 10 de Junho de 1894 com as solenidades do estilo pelo prelado diocesano D. Manuel Agostinho Barreto», que se encontra numa das paredes interiores da mesma capela.

Todas as instituições vinculares estavam oneradas com os chamados «encargos pios», a maior parte deles de carácter perpetuo e que principalmente consistiam na celebração de missas e na satisfação de certas obras de piedade e beneficência, que os instituidores estabeleciam como sufrágio de suas almas e descargo de suas consciências. Não faziam excepção a esta regra os morgadios da Lombada. Na capela do Santo Espírito foram impostas certas obrigações aos seus administradores e tendo o primeiro Conde do Carvalhal, sucessor na administração deste vinculo, pedido a remodelação e redução dessas obrigações ao prelado diocesano D. Frei Joaquim de Menezes e Ataíde, obteve deste, por sentença de 23 de Maio de 1814, que os encargos pios inerentes à mesma capela consistissem, a partir desta data, em manter ali um capelão privativo, que dissesse a missa ao povo em todos os domingos e dias santificados e na celebração de cento e trinta e três missas por várias intenções (25).

Queremos pôr em relevo uma circunstância digna de ponderação. A igreja do Santo Espírito ou do Espírito Santo, segundo a forma mais comum de linguagem, somente é conhecida por esta denominação nos diplomai oficiais, documentos ou livros que a ela se refiram, dando-lhe em geral o povo o nome de Capela de São João e também da Conceição ou ainda a maneira mais simplificada de Capela da Lombada. E bastante antiga a denominação popular de São João e talvez devida ao facto de celebrar-se nesta capela, com grande brilho, a festa do Percursor do Messias, ali representado por uma primorosa estátua esculpida em madeira, objecto de especial veneração por parte dos habitantes daquelas vizinhanças.

A capela de Santo Amaro ou antes o montão de ruínas que dela resta e a magnifica Igreja do Santo Espírito, ambas de propriedade particular e pertença do antigo morgadio da Lombada dos Esmeraldos, foram cedidas pelo governo da metrópole à Diocese do Funchal, com os seus respectivos anexos, para o livre exercício do culto, ficando sob a direcção imediata do pároco da freguesia da Ponta do Sol. (26)

Capela de Nossa Senhora da Piedade. É mais vulgarmente conhecida por capela do Jangão, tomando o nome do sítio em que se encontra edificada. A parte oriental da grande propriedade constituía o morgado do Vale da Bica e sendo dele 8.° administrador António de Carvalhal Esmeraldo, mandou construir, no sítio do Jangão, uma capela consagrada a Nossa Senhora da Piedade, nos primeiros anos do último quartel do século XVII, isto é, pouco anteriormente ao ano de 1679, data em que, num documento autentico, se faz referencia à dita capela, então recentemente edificada. Em 1777 o morgado Francisco Xavier de Ornelas de Vasconcelos procedeu nela a várias reparações, sendo novamente benzida no mês de Agosto daquele ano. No ano de 1879, o conselheiro Agostinho de Ornelas de Vasconcelos, 15.º administrador da casa vinculada do Vale da Bica ou do Jangão, mandou também executar nela alguns trabalhos de restauração, por se encontrar em estado já adiantado de ruína, tendo procedido à sua bênção, no dia 12 de Outubro do referido ano, o arcebispo de Goa D. Aires de Ornelas de Vasconcelos, irmão do proprietário da capela.

Capela de Santo António. Os vastos terrenos, que constituíam a Lombada da Ponta do Sol, foram divididos em duas partes distintas, por ocasião da instituição dos morgadios do Santo Espírito e do Vale da Bica ou Jangão, ficando pertencendo a este último o importante sítio do Lugar de Baixo, mas em virtude duma divisão amigável feita entre os dois primeiros administradores daqueles vínculos, passou poucos anos depois a ser pertença do morgadio do Santo Espírito. Presumimos que tivesse sido João Esmeraldo de Atouguia, terceiro administrador deste último vinculo, o fundador da capela de Santo António, no sítio do Lugar de Baixo, pelos primeiros anos do século XVII. Os últimos proprietários destas terras, a firma comercial A. Giorgi & C.ª, demoliram a capela e a casa adjunta, já então bastante arruinadas, fazendo-as substituir por uma construção inteiramente nova, com uma excelente moradia e uma pequena capela anexa, também dedicada a Santo António, que foi solenemente benzida a 25 de Fevereiro de 1906 pelo prelado diocesano D. Manuel Agostinho Barreto.

Os encargos pios da antiga capela de Santo António Lambem foram reduzidos por sentença episcopal de 5 de Abril de 1819, ficando os respectivos padroeiros obrigados a manter o serviço dum capelão permanente, que diria a missa aos habitantes do sítio em todos os domingos e dias santos, e à celebração perpetua de quarenta missas conforme as intenções exaradas na referida sentença. (27)
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(24) D. João Lobo, bispo de Tanger, era membro qualificado da Ordem de Cristo, a que pertenciam no espiritual as novas terras descobertas e conquistadas, em virtude das várias doações feitas pelos monarcas portugueses. Antes da criação da Diocese do Funchal, aquela Ordem enviava para este arquipélago os sacerdotes que aqui exerciam os actos do culto, mandando em i 5os o bispa D. João Lobo desempenhar nesta ilha as funções do ministério episcopal, afim de satisfazer os instantes pedidos dos habitantes, pois que havia já cerca de oitenta anos que se iniciara o povoamento e ainda nenhum prelado viera à Madeira, o que constituis um grave prejuizo para os interesses religiosos dos seus moradores. No interessante livro do dr. Vieira Guimarães, intitulado A Ordem de Cristo, lemos – «já em 1508 para satisfazer os desejos destes reclamantes, o Viário de Tomar (superior eclesiástico da Ordem) lhes enviou o bispo de anel D. João Lobo, que foi esperado pelo mestre Frei Nuno com toda a clerezia e lhe fizeram: muitas festas. D. João Lobo demorou-se mais dum ano nesta ilha, percorrendo todas as freguesias e exercendo solicitamente as diversas funções do seu cargo!
(25) As 133 missas deveriam ser aplicadas pela seguinte maneira: 10 por alma de Francisco do Couto, 20 por João de Moura Rolim, 2 por Pedro Ribeiro Esmeraldo, 1 por D. Maria de Vasconcelos, 1 por Beatriz de Andrade, 20 por João Esmeraldo o Velho, 10 por D. Guiomar do Couto, 1 por D. Maria da Câmara, por Francisco Manuel Moniz, 2 por Rui Mendes de Vasconcelos, 1 por Gaspar de Vasconcelos, 2 por D. Maria Figueiroa, 1 por D. Bernardo de Beteneourt de Sá Machado, 1 por D. Serafina de Menezes, 2 por D. Guiomar de Moura, 1 por D. Guiomar de Sá, 10 por João Rodrigues Mondragão, 10 por Manuel Fernandes Tavares, 8 por D. Isabel Correia, 5 por Afonso Enes, 1 por João de Ornelas e Vasconcelos, 1 por Baltazar Machado de Miranda, 11 por D. Maria de Betencourt, 7 por Gonçalo Dias, 1 por Luiz António Esmeraldo Teles de Menezes, 1 por D. Lourença de Mondragão.
(26) Art.º São cedidas para exercício do culto, a favor da diocese do Funchal, as capelas denominadas Nossa Senhora da Conceição ou Santo Espírito, no sítio da Carreira, na Lombada dos Esmeraldos, Concelho da Ponta do Sol; e Santo Amaro, no dito sítio da Lombada com os seus anexos (Decreto n.° 19268, de 24-1-1931).
(27) Seriam as 40 missas celebradas pelas almas de Afonso Enes Colunibreiro, António Malheiro o Velho, Francisco Aurélio da Câmara Leme, Pedra Leme, D. Antónia Maria de Menezes, Sebastião de Morais o Velho, Sebastião de Morais o Moço, João Gomes de Andrade, D. Antónia de Morais, João Nunes, D. Mariana de Menezes, D. Catarina Leme, João Gomes da Ilha, D. Catarina de Barros, João Lopes, Henrique Moniz, D. Isabel de Andrade, D. João José de Sá e Francisco Fernandes.

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