Lombada dos Esmeraldos (X) – A Casa Solarenga

Casa EsmeraldosEra sem dúvida a mais ampla e aparatosa casa solarenga dos campos da Madeira, que ainda situada numa cidade populosa não desonraria a hierarquia dos seus mais ilustres moradores. A grande e apalaçada frontaria, de aspecto nobre e senhoril, os seus três espaçosos pavimentos, o numero e largueza das suas salas, os vastos pátios e eirados, a sua invejável situação sobranceira aos terrenos circunjacentes, tendo ao lado a magnifica capela, tornavam-na uma sumptuosa vivenda de ricos e antigos fidalgos, que ali ostentassem o fausto e a grandeza da sua opulência, de par com o brilho e o aparato dos seus armoriados brasões e pergaminhos. Volvidos uns tantos anos, como exemplo eloquente da caducidade das coisas terrenas, vemos asa negra da miséria roçar sinistramente por estas paredes, que foram testemunhas mudas das ilusórias vaidades humanas, que por ali delirantemente se estadearam …

Presume-se que o primitivo solar da Lombada tivesse sido edificado pelo flamengo João Esmeraldo, em época coeva da construção da capela do Santo Espírito, isto é, na primeira década do século XVI. Não seria inicialmente de proporções tão aparatosas e teria no decorrer dos tempos recebido ampliações e melhoramentos, à medida que a instituição vincular, por ele criada, fora crescendo em riqueza, prestigio e importância social. No último quartel do século XVI, aí por 1590, diz o historiador açoriano «que .. foi esta a maior casa da ilha e tem grandes casarias de aposentos, casas de purgar, igreja … », como já atrás fica referido.

Por essa época, era administrador dos dois vínculos João Esmeraldo de Atouguia, que conjecturamos ter sido o que ampliou a casa solarenga, a que alude o doutor Gaspar Frutuoso. A administração dos dois morgadios separou-se, mas as casas de habitação ficaram pertencendo a ambos, com grandes inconvenientes para os dois usufrutuários, até que, no ano de 1679, Luís Carvalhal Esmeraldo, morgado do Santo Espírito, trocou, por oito dias de água, a parte que nas mesmas casas tinha António de Carvalhal Esmeraldo, morgado do Vale da Bica. A essa troca se refere a seguinte inscrição lapidar, que se encontra no pateo interior e sobre o limiar da porta, que dava entrada para o salão nobre: – «Estas casas reedificou Luiz Esmeraldo de Atouguia possuidor legitimo do morgado do Santo Espirito que venceu a primeira demanda por sete votos conformes e a segunda por três todos confirmaram ser o legitimo sucessor e proprietário e de oito dias de água ao morgado da Bica 1679-Troquei por metade destas casas arruinadas a dita água». Pelos dizeres transcritos se vê que Luiz Esmeraldo de Atouguia restaurou a velha casa solarenga, que então se achava já em adiantado estado de ruína. A inscrição também se refere ao grave e prolongado pleito judicial, havido entre os administradores das duas casas vinculadas, com respeito ao direito de administração e sucessão das mesmas, da qual nos ocuparemos em outro capítulo deste opúsculo.

Brasão de Armas dos Esmeraldos (Séc. XVII)

brasao.jpgNa porta exterior do solar, que dá acesso ao primeiro pateo, encontra-se no alto do limiar uma pedra lavrada com um escudo esquartelado, tendo no primeiro quartel as armas dos Câmaras e nos outros três as dos Esmeraldos e lendo-se nessa pedra a data de 1672 e o nome de Luiz Esmeraldo.

Junto da inscrição, que se acha sobre a porta que comunica o salão nobre com o eirado, encontra-se gravada na cantaria da mesma porta a data de 1780, que parece recordar a ligação então estabelecida entre o referido eirado e o sobredito salão, e também a realização de importantes melhoramentos executados naquela parte do grande solar.

Ficaram na tradição as noticias das deslumbrantes festas, que em diferentes épocas se realizaram no vasto solar da Lombada dos Esmeraldos, sobressaindo a todas as que o segundo Conde do Carvalhal e último administrador deste vinculo ali estadeou, com o seu costumado brilho e aparato, nas rápidas passagens que fazia por estas casas, pois é sabido que o mais tempo vivia no estrangeiro, na sua casa de Lisboa e ainda no palácio de São Pedro ou na suntuosa quinta do Palheiro do Ferreiro.

Estas arruinadas casas pertencem hoje (23) ao Ministério das Colónias com a faculdade de cede-las para a instalação duma escola, que eduque e prepare o pessoal missionário destinado ás nossas colónias ultramarinas.

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(23) Art.º 8.º São cedidas a favor do Ministério das Colónias, para os fins designados no
decreto n.° 12485, de 13 de Outubro de 1926, as ruínas do antigo solar do Conde do Carvalhal, na Lombada dos Esmeraldos, e a cerca anexa corte as respectivas águas (Decreto n.° 19268, de 24 de Janeiro de 1931).

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