O Cavaleiro de Santa Catarina IV

CAPÍTULO SEGUNDO – DOIS ANÁTEMAS

RODARA o tempo sobre o estranho caso.

Na Casa da Madalena, Henrique Alemão, acabrunhado, conversava com a esposa que, debalde, pretendia erguer-lhe o ânimo.

Procuremos, em linguagem de hoje e de acordo com a tradição oral, (8) reconstituir, ou melhor, interpretar este diálogo íntimo. Nele se erguem pontas do nebuloso véu que envolveu na Ilha o vulto do misterioso Cavaleiro.

Henrique, havia um mês, recebera Carta de El-Rei de Portugal, pedindo a sua presença na Corte para o que lhe enviaria embarcação dentro de dias. Tinha de partir… e atormentava-o esta ideia.

– Mas não vejo motivo para a tua inquietação. Fizeste-me jurar, Henrique, pela Hóstia Consagrada e, depois, pela vida de nosso querido filho, que nada procuraria indagar do teu passado. Como vês, tenho cumprido o juramento. Escondes-me, porém, alguma coisa que eu talvez deva saber, principalmente, como mãe de Segismundo…

– Senhorinha! Vou falar-te, hoje, até onde me permita a consciência. Ao ser armado Cavaleiro, tomei para com Deus o compromisso de nunca revelar quem sou… e de não voltar mais ao que fui. Tenho de o cumprir, a ver se resgato outro a que faltei – com que vergonha e remorso o digo! – supondo fazer obra grata aos olhos do Senhor e de alto mérito para a minha própria Pátria. Mas temo que venham a descobrir o que, empenhando a minha alma, tomei a decisão de ocultar… para todo o sempre.

Parte do que dizes mo referiste já, quando foi da edificação da nossa igreja. Quiseste-lhe para orago a bem-aventurada Madalena, a pobre – pecadora que em peregrinações e penitências alcançou a santidade. Sei que, como ela, também peregrinaste longos anos para remissão de culpa grave da tua juventude. Não te pregunto qual contendo a minha curiosidade de mulher – embora pressinta que, por ela, correste grandes riscos…

Senhorinha desejava conhecer a causa próxima do abatimento do marido; não querendo, contudo, perturbar-lhe a consciência, nem a sua, prosseguia subtilmente o seu inquérito. Ele debatia-se em evidente luta íntima: avançando, para desoprimir-se; mas contendo-se, a tornear logo o próprio impulso.

Henrique, preocupadíssimo, nem atingiu a discreta insinuação da esposa.

– Sim. Depois dum transe horrível o primeiro castigo de perjúrio – em que o nosso mordomo me livrou de morte certa, passei com ele muitas terras em jejuns e expiações, sempre incógnito, e cheguei à Palestina, como sabes… E, após breve hesitação o resto, o que não devo desvendar, poderás inferir, talvez, mas nunca ouvi-lo da minha própria boca. Guardarás, quanto concluíres, bem no fundo de teu peito. juras-mo?

– No Santo nome de Deus o afirmo, meu Henrique. E, insistindo: – Não me falas, porém, nos teus receios de agora. Corremos algum perigo?…

– Como te hei-de dizer?! Assalta-me o terror de que, lá fora, dêem crédito ás palavras daquêle velho frade-lembras-te? -e me coajam a alguma situação … para mim, insustentável.

A fórmula era vaga, mas Senhorinha não deixou de captar-lhe a intenção. Era dona tão leal, como inteligente e arguta.

No seu olhar. passou um relâmpago de júbilo. Antes de tudo, era mãe. E, das palavras do monge, tinha-lhe ficado a sus peita-desvanecedora, para ela – de que gerara em seu seio… um belo príncipe de sangue.

No entanto, retomou a antiga calma. – Ora, quem porá fé nas vozes dum pobre doido? 1
O Cavaleiro calou-se; mas o rosto ficou-lhe ainda mais turbado.

– Deixemos isso que nada vale, Henrique. Há só uma coisa que eu poderia saber e que nunca me explicaste bem. Porque insististe tanto – até contra a vontade de meu pai – em que o nosso filho se chamasse Segismundo, nome estranho a toda a nossa ascendência ?

– Pus-lhe êsse grande nome, em lembrança de alguém que, na intimidade, eu tratava assim e que foi o meu maior e mais fiel amigo. Alguém cujos conselhos não ouvi, perdendo-me e perdendo-o, porventura…

Pela face de Henrique corriam, agora, duas lágrimas. E acrescentou -Segismundo – tal o castigo que pende sobre mim? – não deve enquanto eu vivo for – compreendes bem ? – saber nada da antiga vida de seu pai. Nem mesmo o que já conheças…

Senhorinha não ficara tão esclarecida, quanto esperava. Mas, à intimação do marido, acudiu prontamente;

– Já que assim o entendes, prometo-o, pela sua felicidade.
– Obrigado, meu amor. Deixaste-me o coração menos apresso. Perdoa se liguei o teu destino ao dum homem sobre quem pesa traição a um sagrado juramento. E pressinto -prosseguiu num murmúrio – que a despeito de meus votos e renúncias ainda não está expiada a minha culpa.

A entrada de Segismundo – rapaz de dezoito anos, que herdara com a estatura e a distinção de Henrique a vivacidade, o espírito e os olhos negros da mãi – pôs termo a esta truncada e embaraçosa confidência.

Segismundo chegou-se ao pai para dizer-lhe que o escudeiro o avisava da aproximação duma nave portuguesa que, em largos bordos, demandava a baía do Funchal. O sesmeiro saiu logo, excitado, a encontrar-se com o mordomo.
Com sorriso de mal contido orgulho, Senhorinha encarou o filho, fitando-o por instantes; e, atraindo-o a si, abraçou-o longamente num esto de efusão e terno enlevo.

Estava-se em fins de Setembro.
Na costa sul da Ilha havia caído chuva miúda, mas contínua, por mais duma semana.

Henrique Alemão fora obrigado a vir à sede da Capitania onde falou com João Gonçalves da Câmara, então já donatário, antes de seguir para Portugal a avistar-se com o monarca, como este lhe rogava. O barco, que só esperava monção, deveria largar em breve.

Fundamente angustiado, o Cavaleiro envelhecera dez anos.
Confessou-se e comungou na Igreja da Conceição-de – Baixo. E, a seguir, encaminhou-se para o porto onde tomou o seu pequeno barenel coberto, à ré, e comodamente alcatifado.

Como serenasse o mar, lá partiu, junto à terra, com rumo à Madalena, afim de despedir-se de sua esposa e de seu filho.

Na costa, as terras achavam-se encharcadas, aterrando-se os «diques» e as betas argilosas. O ar, porém, estava calmo, ainda que quente para a estação que decorria.

Não se ouviam trovões. Mas, ao passar Câmara de Lobos, um remador fez notar aos companheiros certas lucilações que subiam na atmosfera. Ficaram apreensivos. Contudo, calaram-se e seguiram, não sem retesarem mais a rija musculatura de seus braços chegados ao Cabo Girão, ouviu-se um rouco ruído subterrâneo acompanhado de forte abalo de terra, que intumesceu e sacudiu as águas.

Tudo oscilou em torno. Imediatamente, despenha-se uma quebrada do alteroso Cabo que se apruma sobre o mar. Um penedo, solto da rocha desmoronada, atinge em cheio a popa do luxuoso batel, e mata fulminante mente o sesmeiro cujo corpo ficou ali esfacelado. (10)

Ninguém mais fora vítima da catástrofe: a tripulação, projectada pelo abalo, salvou-se a nado depois de breve luta com as ondas agitadas e convulsas pelo choque da quebrada. Livres do turbilhão, as próprias vagas arrojaram, à costa, sobreviventes, tábuas, remos e o cadáver do infortunado Cavaleiro de que foram piedosamente recolhidos os despojos.

Àquele fragor sinistro, sucedeu a noite, silenciosa e negra, quase sem crepúsculo. O sol, esbraseado na hora da tragédia, sumira-se, logo, frio e apagado, nos abismos do oceano.

A tradição escrita acrescenta, apenas, que alguns restos do corpo de Henrique Alemão foram sepultados na Igreja da Madalena.
O lúgubre sucesso consternou e fez cismar.

Os que conheciam e relacionavam os factos, lembraram-se do que correra, havia anos, sobre a predição de certa bruxa, na véspera da Batalha de Varna, quando súbito terramoto abalava toda a Hungria: «-Esse príncipe, se escapa à guerra, morrerá, violentamente, de morte inglória!» é Com o mesmo tremor de terra, a predição cumprira-se?.

A verdade é que assim acabou esse homem sua vida atormentada, bem que de alma, finalmente, redimida…

Recordavam ainda, na Madeira, a reforçarem seu conceito, que, momentos antes da Batalho, repentino vendaval varrera os pendões` cristãos, ficando indemne, apefas, o balsão de Ladislau. E sabia-se como, depois da luta, se compreendera este fenómeno, na Hungria e na Polónia: «o rei — o sinal fora bem claro – sairá salvo da catástrofe!»

Salvo, sim, – diriam na Ilha, ao tempo – não para governar mais os seus reinos, mas para acolher-se, viver, penar, morrer aqui, como predisse a búlgara, obscura e sinistramente.

E, ante todos estes factos e estranhas circunstâncias, é como não havia de gerar-se a lenda de que o infausto Cavaleiro era o próprio Ladislau III, da Polónia, o mesmo a quem o monge polaco falara na Madeira, e que o seu povo, durante largos anos, julgou oculto e disfarçado em qualquer remota parte?

Mas, a maldição fora mais longe: ia atingir-lhe o próprio filho.
Morto o sesmeiro, Senhorinha estava livre, por estas palavras do marido:- «enquanto eu vivo for» — do compromisso que tomara de nada referir a Segismundo sôbre o passado de seu pai.

Ter-se-ia ela servido, agora, de tal liberdade, para revelar ao jovem o que sabia ou supunha saber da antiga existência do esposo ? é Tê-lo-ía,mesmo, aconselhado à revindicação do que julgaria seus legítimos direitos? O escudeiro, íntimo do ousado e esbelto moço, è influiria nele, também, com seus relatos ou, pelo menos, com suas autorizadas sugestões?. . .

O certo é que Segismundo, findo o luto, «se dirigiu a Lisboa na intenção de passar à Polónia.» (11)

Na viagem, porém, sobrevindo temporal, um dos mastros do navio, cortado, cerce, pelo vento, caiu sobre ele, matando-o (12) e ao mordomo que, no transe, se encontrava à sua beira.

E ali findou, sem prole, o único filho varão do Cavaleiro de Santa Catarina. (13)

O espírito geral não podia alhear-se, neste passo, daquele anátema do Rei que, ainda na Batalha de Varna, após a exortação de Amurate à sua guarda, rouquejara com todo o rancor da alma turca:
Que o castigo do traidor vã, se a tem, até a sua descendência! …

Realmente tudo se cumprira e conjugara para a tradição que se firmou.
O povo, na observação da natureza, dos acontecimentos e dos homens, procede de modo análogo à ciência na dedução de suas leis: regista os factos, compara-os, nota-lhes, através do tempo, as repetições e as coincidências, e formula, então, os seus provérbios ou compõe, pouco a pouco, as suas lendas.

Os provérbios constituem a ciência popular, que raro falha.

A tradição é a História feita pelo povo. Como a dos doutos, pode enfermar de erros e de falsas ilações; mas o perfume de poesia que ela evola, o intenso clangor heróico que desfere, ou a doce nota de sensibilidade em que ressoa, ajudam-nos a ver melhor o cunho peculiar de certa época ou a penetrar mais fundo no íntimo dos homens e dos factos.

Um alto e nobre espírito, Francisco Coppé, ao falar desse «rumor dos tempos» em face das contradições irredutíveis manifestadas, em qualquer ponto, pela actual crítica histórica, diz-nos com convicção animadora: «A verdade – perdôe-se isto a um poeta – creio-o bem, está na lenda. (14)
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(8) A tradição escrita, através dos Nobiliários, está de acórdo com a tradição oral nos pontos essenciais da reconstituição que vem no texto. Henrique Alemão ocultou sempre a sua estirpe e o seu passado, afora, quanto a èste, as peregrinações que fez pelos lugares santos como promessa ou como expiação indo até a Palestina onde foi armado Cavaleiro de Santa Catarina, no Monte Sinai. Todos os Nobiliários que se lhe referem,o dão como um vago «príncipe polaco milagrosamente salvo da Batalha de Varna», mas nunca apontam esta informação como saída da sua bôca, insistindo, até, sôbre a categórica negativa do sesmeiro a toda a insinuação nëste sentido.
Henrique Henriques de Noronha afirma, no seu Nobiliário, ter visto a justificação da origem principesca de H. Alemão, justificação feita segundo êsse autor, em 1584, isto é, 130 anos depois de ële surgir na Madeira onde chegou com cêrca de 30 anos de idade -e, portanto, obtida certamente muito depois da sua morte.
Nunca alcancei vér êsse documento, a que nenhum outro autor se refere, ignorando por isso o nome com que aí figuraria o misterioso senhor da Madalena – tratado apenas, como já está dito, por Cavaleiro de Santa Catarina na Carta da sua sesmaria, passada pelo Infante D. Henrique, e na confirmação desta, dada por D. Afonso V (Nobiliários), o que leva acrêr que a própria Casa Real portuguesa tinha cuidado em não identificar completamente aquela personagem.
(9) Nobiliário de Castelo Branco».
(10) Nota de A. de Azevedo às «Saudades da Terra, «Elucidário Madeirense» e todos os Nobiliários que se referem a Henrique Alemão.
(11) «Nobiliário de Castelo Branco».
(12) e (13) -Nobiliários de Castelo Branco e de Henrique Henriques de Noronha.
(14) «Estudo sôbre o livro «Napoleão Íntimo», de Artur Lévy.

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