O Cavaleiro de Santa Catarina III – QUEM ERA HENRIQUE ALEMÃO?…

SEGUNDA PARTE
CAPÍTULO PRIMEIRO – O SESMEIRO DA MADALENA

Haveria uns trinta anos que a Ilha da Madeira começara a ser povoada, quando, aí por 1454, sendo donatário do Funchal João Gonçalves Zarco, chegou a esta Ilha uma «misteriosa figura» que se nomeava por Henrique Alemão, também conhecido pelo Cavaleiro de Santa Catarina.

O apelido Alemão – murmurava-se seria apenas disfarce tendente a ocultar a origem desta «legendária personagem» como lhe chama Álvaro de Azevedo nas suas Notas à 1.ª edição das «Saudades da Terra», do P. Gaspar Frutuoso. (l)

Era homem ainda moço – pouco mais de trinta anos – alto, de cabelo loiro já entremeado de cans, barba longa arredondada na ponta, olhos rasgados e azuis. Sua tez branca e emaciada, vincava-se de rugas que bem pareciam precoces.

Tinha aspecto de quem sofrera muito e, mais, de quem padecia ainda profunda dor oculta. Vestia severamente, sem excluir, no traje e em seu porte, natural elegância e distinção. Acompanhava-o, geralmente, um mordomo ou escudeiro pouco mais velho do que ele, e também de cabelo, pele e olhos claros.

Quem seriam, e qual a sua procedência?…
Estava-se, ainda, nos primeiros tempos da colonização da Ilha, e pouco se indagava da identidade dos forasteiros que, de vários cantos do mundo, a ela constantemente aportavam – sobretudo se tinham meios de fortuna ou se traziam qualquer, concreta ou vaga, recomendação da corte.

Aqui acorriam, à mistura, nacionais e estrangeiros: pilotos, mercadores, fidalgos, operários, simples colonos, gente sem profissão e, até, criminosos de delito comum fugidos à acção das justiças de El-Rei.
Era preciso desbastar e arrotear as terras e, por todos modos, fundando lares e povoações, valorizar este primeiro marco dos descobrimentos portugueses.
Contudo, o aparecimento dos dois homens não deixou de ferir bem fundamente as atenções gerais.
O donatário do Funchal recebia Henrique Alemão com «mui particular respeito, e concedeu-lhe, jogo após a sua vinda, a sesmaria de grandes terras na costa sul da Madeira, a cerca de seis léguas da sede da capitania, concessão de que lhe passou carta o Infante D. Henrique, em 29 de Abril de 1457, confirmada por El-Rei em 8 de Maio do mesmo ano. Nestes documentos, Infante e Rei tratam o sesmeiro, apenas, por Cavaleiro de Santa Catarina.
O desconhecido, dizia-se, apresentara a Zarco, como «credencial», uma missiva de D. Afonso V. Jantava o Cavaleiro em casa do Capitão; mas, como notam os Nobiliários da Ilha, em especial lugar de honra e servido em baixela aparte, (2) restringida a pessoas de classe superior à do próprio donatário. Corria que este uso derivava de discreta mas formal recomendação de El-Rei.
Foi nos Paços do Capitão, ao Alto das cruzes, numa de suas aparatosas recepções de quase vice-rei, que Henrique Alemão conheceu Senhorinha Anes, donzela de nobre estirpe algarvia e, então, uma morena alegre e buliçosa a constituir fundo contraste com o loiro e melancólico recem-vindo…
Solicitado pela atraente Senhorinha, Zarco apresentara-a ao seu distinto hóspede, conversando, ambos, uma tarde inteira, sensivelmente afastados da restante companhia. E, ao cabo – reparou-se
a viva e formosa moça conseguira animar aquela face triste, e dar-lhe luz ao olhar, até ali, quase apagado.
À saída, bosquejava-se já que se achavam enamorados. O meio, bem que fidalgo, era estreito de mais para que não fosse alfobre de curiosidades indiscretas.
Depois de outros colóquios, sempre em casa de Zarco, visto o Cavaleiro esquivar-se a quaisquer novas relações, propalava-se que os dois estavam noivos, comentando-se, agora, que a donzela se
tornara muito menos expansiva, pois fugia claramente às perguntas das amigas sobre a pessoa e vida do seu «Príncipe Encantado»…
Designação maliciosa e corrente entre as damas quando queriam referir-se a Henrique Alemão.
De posse dos terrenos, vastos e férteis, que lhe foram outorgados, o Cavaleiro estabeleceu-se na sua sesmaria, ali erguendo Capela sob a invocação de Santa Maria Madalena, donde o nome de Madalena ou Madalena do Mar, dado, depois, a este domínio do litoral da Ilha. E o idílio, de um ano atrás -não se iludiram as «comadres»- terminava em casamento Henrique Alemão desposara
Senhorinha Anes, (3) apadrinhado, em nome de EI-Rei, por João Gonçalves Zarco.
Era rico o sesmeiro da Madalena. Bem que frequentando com as esposa os Paços do Funchal, não descuidava o cultivo e amanho de suas terras que depressa prosperaram à custa de diligente esforço e de copiosos capitais. Quando saia, ficava na direcção da casa o seu homem de confiança, esse amigo que, embora de inferior categoria, era para ele como um segundo eu. «Prende-os, algum segredo», bisbilhotou-se, entre dentes, desde os primeiros dias a «Capela do Alemão» era rica de paramentos e alfaias, sendo obra de arte, mandada vir de fora, o grandioso altar-mor onde a imagem do orago, de estilo bizantino, constituía para o fundador objecto de ardente devoção. Os altares laterais eram dedicados, um, a Santo Estêvão, e, o outro, a São Jorge, ardendo aqui noite e dia uma lâmpada votiva.
Entre as casas da Madeira, a de Henrique Alemão passava por a de mais luxo e atavio, sobretudo em alcatifas e baixela, excedendo, em muito, a do próprio donatário. Tapeçarias e móveis, de cunho e arte orientais, impunham-se como excepção, ao tempo, em terras de Portugal.
Apesar de certo fausto que indicava hábitos e predilecções de casta, o Cavaleiro dispensava a todos grande e natural afabilidade.
Piedoso, liberal e justo, vivia adorado por seus servos e colonos.
Nas festas religiosas e nas recepções em sua casa ou na do Capitão, o impenetrável Sismeiro ostentava, sempre, «a roda de navalhas» – símbolo da primeira tortura infligida à heróica e sábia virgem alexandrina -, insígnia de sua Cavalaria como membro da Ordem de Santa Catarina do Monte Sinai. (4) Parecia ter em alta conta o emblema da selecta confraria que, neste monte bíblico, alguns príncipes cristãos fundaram, no ano mil, junto ao túmulo da Santa.
Passaram alguns anos.
Certa manhã de verão, ancorava no porto do Funchal um navio procedente do Reino. Entre os desembarcados, viam-se alguns frades que, apôs breve troca de palavras com gente acudida à: praia, se dirigiram para o cenóbio de São João da Ribeira.
Eram novos franciscanos, porventura, que vinham aumentar o número de religiosos necessários ao bem espiritual da crescente população do burgo…
Na tarde desse mesmo dia, dava-se, em seguida ao pospasto, festa de pompa no Alto das Cruzes.
Fazia anos a Capitão, e Zarco reunia nos seus Paços a flor da nobreza das duas capitanias. Galanteava-se e jogava-se o xadrez pelas salas e jardins, esperando se com ansiedade o serão em que se ouviriam os motes e glosas, além doutros, de dois dos mais notáveis poetas-cavaleiros Tristão Teixeira ou das Damas, herdeiro da Capitania de Machico, e João Gonçalves da Câmara, filho herdeiro do Capitão do Funchal.
Veio a noite e, com ela, foram-se acendendo as grossas velas murais e os lustres de ferro suspensos por cadeias.
Bailavam no salão ao som de castanhetas e adufes, duas escravas moiras, ondulantes e airosas, quando o mestre-sala, avisado por um servo, procurou o donatário com quem comunicou em voz baixa.
Zarco, hesitando por momentos, deu-lhe uma ordem, fez sinal para suster-se a dança, e esperou próximo da larga porta que deita para a antessala. Os cavaleiros levantaram-se, entreolhando-se; e as damas estabeleceram sussurro de vozes cujo tom oscilava entre a curiosidade e o susto.
Logo entrou um franciscano que, cumprimentando reverentemente o Capitão, lhe disse com humildade ao que vinha, – já no meio do silêncio da assistência mais sossegada, agora, à vista do burel monástico: – Senhor! Seis freires que se dizem polónios, chegados esta manhã, desejam falar, de urgência, ao Cavaleiro de Santa Catarina que sabem estar nestes Paços.
O donatário, contrafeito, dirigiu-se a Henrique Alemão, prevenindo-o de que o buscavam alguns frades estrangeiros.
O sesmeiro da Madalena seguiu o Capitão em direcção à porta, ainda mais pálido do que habitualmente, mas denotando decisão.
Um velho monge, saído do grupo que aguardava fora, avançou até ele, fixou-o, e, curvando-se com fundo e particular respeito, quis beijar-lhe a mão que o Cavaleiro vivamente retirou. O religioso, erguendo-se, proferiu então com firmeza algumas frases que ninguém ali pôde entender, e a que Henrique Alemão opôs a mais formal estranheza.
Mas o polaco, levantando a cabeça e apontando a «roda de navalhas colada ao peito do sesmeiro, redarguiu, em castelhano, volvendo-se para a assembleia
– Reconheço-o. Irmãos nossos hão-se informado de seus passos e sei, sob sigilo, como chegou ao local onde foi armado Cavaleiro, como sei desde quando se encontra oculto nesta afastada Ilha.
E, porque o sesmeiro tentasse desdizê-lo, acrescentou com voz sonora e firme:
– Este homem não se chama Henrique Alemão. Seu nome éLadislau, 2.º Jagellon, rei da Polónia onde, há anos, com preces e votos o esperam. Trago ordem de Casimiro, seu irmão, para levá-lo
connosco. Em nome de Deus, que o salvou da catástrofe de Varna, não o detenhais longe da Pátria…
– É um louco! (6) -bradou o Cavaleiro, abafando com o seu grito a voz do frade que, à intimação de Zarco, foi retirado bruscamente da sala, protestando e debatendo-se.
Senhorinha fitou discretamente o marido, mas não pareceu partilhar da turvação em que o via.
Fora, os restantes freires confirmavam que aquele era o seu rei, unindo suas vozes, mais timidamente embora, aos clamores do que fora expulso do salão.
O brado do sesmeiro, bem que enérgico, não teve, para muitos que o ouviram, esse tom de funda e cortante sinceridade que a situação impunha. Não o manifestaram, contudo.
– É um louco! É um louco diziam, também sem segurança, repetindo a frase ouvida e que julgavam a mais oportuna neste lance.
Bem que o Capitão voltasse a tranquilizar seus convidados, afirmando que o frade doido ficaria guardado a bom recato até que, com seus companheiros, saísse da Madeira, a calma desapareceu nessa noite do serão do Paço das Cruzes.
Aquele monge, mentecapto ou não, aguara com a sua visita esta festa que se prometia tão brilhante.
Dias depois, os religiosos polacos – Zarco cumpria a sua promessa voltavam para Lisboa no mesmo barco que os trouxera ao Funchal…
Alguns Nobiliários informam que aos frades passaram a Portugal e foram ao Algarve onde estava D. João II e lhe pediram mandasse ir o dito Cavaleiro (Henrique Alemão) e fizesse com que ele tornasse para o seu reino, o que se fez. Porém, ele sempre negou, e El-Rei o deixou tornar para a Ilha, e os polacos para a sua Pátria».
(7)
A suspeita, porém, da régia estirpe do sesmeiro, essa, ficou na Ilha e recrudesceu, lá fora, adquirindo visos de certeza.

(1) – «Saudades da Terra, do Dr. Gaspar Frutuoso – pág. 514 (2.° col.). O «Elucidário Madeirense, dos eruditos escritores Padre Fernando Augusto da Silva e Carlos Azevedo de Menezes, de mais fácil consulta, insere a pág. 314 (2.ª col.) o que, sob o título «Alemão», dizem as Notas, de Álvaro de Azevedo, às Saudades da Terra.
(2) Nobiliário de Castelo Branco», na posse do douto escritor madeirense Sr. Tenente-Coronel Alberto Artur Sarmento. Segui-o de perto, por ser, entre os Nobiliários da Ilha que conheço, um dos mais autorizados e o mais minucioso.
(3) Nota, já citada, de Álvaro de Azevedo, às Saudades da Terra, e Nobiliários madeirenses.
(4) – «Nobiliário de Henrique Henriques de Noronha, existente na Biblioteca da Câmara Municipal do Funchal. Neste ponto, o mesmo diz a Nota de A. de Azevedo, atrás referida, e vários Nobiliários madeirenses.

(5), (6) e (7) -«Nobiliário de Castelo Branco, citado acima, e outros.

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