O Cavaleiro de Santa Catarina I – Tratado de Paz

PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO PRIMEIRO

O ano de 1444, era rei da Polónia Ladislau III, primogénito de Ladislau Jagello segundo monarca desta nobre dinastia. Tinha apenas dez anos, à morte de seu pai, e, logo aos quinze, atingindo a maioridade, recebeu da clerezia e da nobreza o árduo encargo de reinar neste país de tão agitada e complexa política. Como se à sua fronte adolescente não bastasse o peso duma coroa, outra lhe estava reservada ainda, dentro dum futuro muito próximo.

Por morte do imperador Alberto, a Hungria, ameaçada pelos turcos, aspirava a uma íntima e forte aliança com a Polónia. Mas, entre os húngaros, havia indecisões; desfê-las, porém, o aparecimento dum homem chamado João Corvin, conhecido, depois, por Huniade – alcunha tirada do forte, do mesmo nome, nos confins da Transilvânia – e filho natural de Segismundo, da Hungria. Espírito, a um tempo, prudente e enérgico, corajoso e de altos dotes estratégicos, Huniade parecia destinado a ser a alma da defensam da sua pátria. E logo compreendeu que a salvação da Hungria estava na assistência militar, sólida e efectiva, que lhe prestasse a Polónia: assistência só viável pela fusão dos dois reinos.

Por sua iniciativa, uma brilhante embaixada veio a Cracóvia oferecer a coroa húngara ao jovem rei polaco. Entre os magiares, contudo, davam-se mais tarde dissensões provocadas pelo partido de Isabel, a imperatriz viúva, que, grávida à morte do marido, não desistia de ver na cabeça do filho recém-nado a coroa de Santo Estevão. Neste passo, Huniade colocou todo o seu prestígio do lado de Ladislau que, a despeito dessas lutas, foi coroado rei dos húngaros.

Mas, nem por isso serenaram os ânimos.
Interveio então, conciliando, o Cardial Cesarini, legado do Papa Eugénio IV. Cesarini, hábil diplomata, que já captara as boas graças do rei, conseguiu, entre este e a imperatriz-mãe, um encontro para a conclusão da paz interna, sendo uma das condições – a primeira – o casamento da primogénita de Isabel com Ladislau III. O enlace ficou justo – bem que os noivos nem sequer se conhecessem, nem o casamento viesse a realizar-se. E o monarca da Polónia tornouse assim, de facto e de direito, o indiscutível rei da Hungria.

Este país, porém, continuava cada vez mais ameaçado por Amurato II que, recentemente, invadira a Transilvânia e a Sérvia.

Os turcos estavam já na posse de algumas regiões do império grego, tanto na Ásia como na própria Europa. Constantinopla bradava por socorro; e o legado de Eugénio IV procurava opor aos progressos do grão-turco as forças coligadas dos dois países cristãos.

Ladislau III, grave, acolhedor, justo, activo e profundamente amado do seu povo – no que o ajudava, até a esbelteza natural e seu porte majestoso -, tinha então vinte e um anos e possuía ao máximo inclinações guerreiras, a par da mais ardente fé religiosa.

Facilmente se penetrou da ideia de combater a Turquia. E foi decidida a guerra. Huniade, ao tempo, palatino da Transilvânia e chefe do exército húngaro, posse resolutamente ao lado de Ladislau e avançou de encontro aos otomanos, infringindo-lhes, por superiores dotes militares, formidáveis e consecutivas derrotas. O rei, que com suas forças lhe seguia os passos, reúne-se ao caudilho e, ambos, junto ao monte Conobiza, numa última batalha em que o irmão de Amurate ficou morto, bateram totalmente as forças turcas. Ladislau, temerário, ia tendo a sorte deste chefe maometano.

Salvou-o, João Huniade – o seu Segismundo, como na intimidade lhe chamava-o que ainda uniu mais os corações destes dois homens. Fez-se então, entre os dois adversários, um Tratado de Paz a pedido de Amurate, com pesadas condições para os otomanos. Este tratado, que duraria dez anos, foi ratificado em Szeged, a 15 de Julho de 1444, e escrito nas duas línguas, sendo confirmado solenemente pela fé do juramento. O rei da Polónia jurou sobre os Santos Evangelhos, e o sultão da Turquia jurou sobre o alcorão.

Amurate, confiante, foi descansar para a Ásia das fadigas e preocupações da guerra.

Mas Ladislau logo se arrependeu deste convénio que aceitara apenas pela falta ou impossibilidade de auxílio das outras potências cristãs. E, dez dias após esse solene compromisso, mais exaltada sua Fé por sugestões de muitos que o cercavam, o rei de terminava invalidar o pacto com o sultão. Outros conselhos tinham vindo já neste sentido. A carta do imperador grego, João Paleólogo, essa, dava o retiro de Amurate na Ásia, como a circunstância mais oportuna e decisiva, a aproveitar, para a aniquilação do poder turco na Europa. Convencido da inanidade dum juramento prestado ante infiéis, Ladislau, – depois de magno Conselho em que Cesarini tomou parte – resolveu a nova guerra.

Huniade que sempre induzira o rei a respeitar seu santo compromisso, deixou-se vencer, contudo, pelo ardor entusiástico do monarca, jovem, como ele, seu amigo e irmão no fervor religioso.

E tudo, entre os dois, ficou assente a defesa da cristandade e a segurança de seus próprios países impeliam-nos a de novo avançar contra a Turquia.

Era duns dez mil homens o exército polaco-húngaro a que se lhe juntaram cinco mil soldados sob o comando de Drakul, hábil guerreiro e Príncipe da Valáquia.

Drakul, bem que sabedor e ousado, não vinha de ânimo seguro: não tanto pela grande superioridade das forças do sultão, mas, sobretudo, pela predição funesta duma pitonisa búlgara que dava esta guerra como fatal para os cristãos, fundando-se no violento abalo de terra que, no próprio dia em que o convénio foi rasgado às mãos de Ladislau, sacudira toda a Hungria, (1) como se o orbe se revoltasse, até o íntimo de seu seio, contra a falta a um juramento feito, ao mundo e aos Céus, no santo nome de Deus.

E a vidente concluía:
– «Esse príncipe, se escapa à guerra, morrerá, violentamente, de morte inglória!» A profecia correu, célere, entre os exércitos da Cruz, ensombrando por momentos, o claro e vivo olhar do rei cristão.

Mas lá estava Cesarini, para varrer-lhe do espírito o resto da superstição nele deixada pela voz da velha bruxa.

Os exércitos cristãos, levando Huniade em sua guarda avançada e Ladislau no grosso da coluna, atravessaram as planícies da Bulgária, em rota longa, mas muito mais segura, para a Turquia europeia. De caminho, foram tomadas muitas vilas, praças e cidades, entre estas, Varna – a «Constantia», dos antigos – ao tempo, praça turca no principado da Bulgária.

O rei chegava a Varna, justamente, quando soube a terrível e inesperada nova: o sultão tinha saído da Ásia e já passara à Europa à frente de quarenta mil homens, desembarcando no Bósforo. As tropas de Amurate, transportadas por barcos genoveses, acudiam em marchas forçadas, e estabeleciam-se a cerca de três quilómetros do acampamento cristão.
Huniade propôs, em Conselho de Guerra, que o exército polónio-húngaro tomasse a iniciativa do ataque em campo raso, proposta logo aceita pelo moço e heróico rei.
Rápido, se dispõem as forças para a batalha.

Flutuava, entre os magiares, o estandarte negro da Hungria, enquanto os polacos se uniam sob o antigo pavilhão de São Ladislau.

Ao centro estava o rei ladeado por cinquenta brilhantes cavaleiros, na maior parte príncipes polacos e húngaros, todos esbeltos e jovens como ele. Junto de Ladislau ficava Estevão de Bathor com a bandeira de São Jorge. O bastardo de Segismundo trotava ou corria por toda a parte a dar ordens, na sua missão de general em chefe.

À frente do campo de Amurate, seguia um fosso, defendido por paliçadas, em cujo bordo se erguia uma alta lança com o Tratado de Paz violado pelos cristãos. Amurate impunha-o, assim, aos seus soldados, como documento da perfídia do inimigo, implorando a protecção de Deus para a punição do perjúrio. (2)

Pouco depois de fixada a haste com o símbolo da traição, levanta-se um repentino e furioso vendaval que despedaça os estandartes húngaros e polacos, poupando apenas o de Ladislau III. (3)

O Tratado de Paz, esse, continuava a oscilar no campo turco. Deste lado, o facto foi considerado de mau presságio para o exército cristão. Mas a bandeira de São Jorge também estava intacta, junto de Ladislau…- é Prenúncio – cogitavam muitos – de que da batalha se salvaria o rei?…

(1) LA POLOGNE-Historique Littéraire, Monumentale et Pittoresque», por uma Sociedade de Escritores Polacos, – Paris (1836-1837) – tomo 2.º pág. 118, (2.ª col.)
(2) e (3) Obra e tomo citados-pág. 119 (1.ª col.)

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