Lombada dos Esmeraldos (VIII) – A Industria Sacarina

Embora as vastas e fertilíssimas terras da Lombada não pudessem produzir, no tempo de João Esmeraldo e ainda mesmo em época muito posterior, as vinte mil arrobas de açúcar de que tão hiperbolicamente nos fala Frutuoso, é todavia indubitável que a Ponta do Sol, não só foi um dos primeiros lugares em que mais largamente se procedeu ao plantio da cana sacarina, como também em breve se tornou um dos maiores centros industriais no fabrico do açúcar, graças ao notável desenvolvimento que o distinto fidalgo flamengo soube imprimir à cultura agrícola e ás industrias suas derivadas. As referências do autor das Saudades vêem apenas confirmar a importância desse movimento industrial e fornecer-nos interessantes notícias acerca dos meios de que geralmente naquela época se lançava mão para a cultura das terras e outros; elementos de colonização. Haja vista o que posteriormente se deu, em mais larga escala, com o povoamento e as explorações agrícolas nas terras brasileiras.

Como já atrás referimos, os escravos africanos foram os melhores auxiliares que tiveram os sesmeiros continentais no amanho das terras que lhes eram concedidas. E não admira que chegasse a oitenta o número desses pobres negros sujeitos á servidão, existentes nas fazendas da Lombada e de que Esmeraldo se servira para o rápido desenvolvimento agrícola que elas chegaram a atingir.

Eram muito rudimentares os processos empregados o fabrico do açúcar, quando, por meados do século XV, e desenvolveu largamente a cultura da cana sacarina. Umas prensas manuais, construídas de madeira e conhecidas pelo nome de alçapremas, constituíam as primitivas maquinas em que eram esmagadas as canas e obtidas as respectivas garapas. Vieram depois os «engenhos» com cilindros feitos de troncos de til, de difícil e penoso manejo braçal, a que os fortes músculos dos escravos davam um, vagaroso mas continuado movimento. 0 primeiro engenho movido a água data do ano de 1452, em que foi feita a Diogo Teive uma concessão para o construir (21) e levantado na margem duma das nossas ribeiras, mas em local que hoje se desconhece. Havia então o açúcar chamado duma e de duas cozeduras, sendo o primeiro de qualidade superior ao segundo. No livro do doutor Manuel Constantino, publicado em Roma no ano de 1599, encontram-se os seguintes interessantes pormenores: « …a garapa passa por cinco recipientes sucessivamente, de modo que a primeira a entrar, logo que chega a ferver até um certo ponto vai sendo baldeada para outros recipientes, onde coze a fogo brando, separadamente, até chegar àquele ponto preciso, que permite a sua condução em receptáculos feitos de terra ou barro.

A segunda espuma, pois a primeira é deitada fora, que na continuação da fervura ou cozedura vai aflorando, é guardada em pipas e é muito parecida com o mel, se bem que um pouco mais liquida e escura. Os madeirenses chamam-lhe «melaço e dele se servem apenas para a engorda de cavalos misturado com farelo e palha.

Os comerciantes franceses e ingleses, porém, exportam-no para os seus países, usando-o em lugar de mel (22)». Era nas chamadas «casas de purgar» que os açucares se depuravam e recebiam os últimos aperfeiçoamentos de fabrico, sendo ali convenientemente preparados para o consumo local e sobretudo para a exportação.

Quando João Esmeraldo, nos fins do século XV, desenvolveu um grande movimento fabril e agrícola nos seus domínios da Lombada, já teria então a industria açucareira atingido um relativo estado de perfeição nos seus processos de fabrico, sendo todavia muito provável que Esmeraldo houvesse notavelmente concorrido para que essa lucrativa industria fosse ainda melhorada e aperfeiçoada nas qualidades da sua produção, se atendermos ao seu gemo empreendedor e ao alto de grau de prosperidade a que soubera elevar a cultura daquelas terras, que então constituíam a mais vasta e rica propriedade de todo o arquipélago. As «vinte mil arrobas», que hoje corresponderiam a trezentas toneladas, são, sem dúvida, a maneira hiperbólica de exprimir uma ideia, mas representam, na realidade, uma produção industrial muito abundante, que o cronista quis fixar por meio duma frase retoricamente exagerada…
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(21) Saudades, ed de 1873, pág. 665.
(22) História da Ilha da Madeira pelo Doutor Manuel Constantino, vertida do latim pelo padre J. Baptista de Afonseca e prefaciada e anotada pelo autor deste opúsculo. Funchal, 1930.


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