Lombada dos Esmeraldos (VII) – O rapto de D. Isabel de Abreu

post11.jpgVários nobiliários e antigas crónicas referem pormenorizadamente o conhecido episódio do rapto de D. Isabel de Abreu, a que Gaspar Frutuoso também consagrou seis estiraçadas páginas, (18) o que prova a grande retumbância que o caso teve na época, havendo até sido aproveitado alguns séculos depois, por poetas e novelistas, para assunto de diversas composições em prosa e verso (19). A principal protagonista dessa cavaleirosa e romântica façanha foi D. Isabel de Abreu, irmã de D. Águeda de Abreu e cunhada de João Esmeraldo, e teve seu epilogo nas terras da Lombada, que serviram de teatro a essas cenas de puro feudalismo, que hoje, vistas à luz dos costumes da nossa época, nos causam tamanha admiração e assombro. Seguindo a larga descrição das Saudades da Terra, deixámos nas páginas do Elucidário Madeirense uma – breve narrativa desse episódio, da qual vamos trasladar alguns períodos, que ponham mais em relevo a acção dramática desse curioso sucesso, ocorrido a pequena distancia da Idade Média, época fertilíssima em acontecimentos de semelhante natureza.

D. Isabel de Abreu, que era viúva de João Rodrigues de Noronha, filho do terceiro capitão donatário do Funchal Simão Gonçalves da Câmara, vivia na sua casa do Arco da Calheta, possuidora duma avultada fortuna, quando António Gonçalves da Câmara, sobrinho do mesmo capitão, donatário e que ali morava próximo, se introduziu violentamente e a desoras nas casas de D. Isabel, com o fim de a levar a contrair casamento com ele. D. Isabel conseguiu convencer António Gonçalves Câmara da inconveniência duma proposta de casamento em tais condições e convidou-o a comparecer no dia seguinte, para se tratar então das formalidades do matrimónio, a que ela de boa mente acederia. Fez-se António Gonçalves da Câmara acompanhar duma comitiva de cerca de cinquenta cavaleiros da Ponta do Sol e Ribeira Brava, dirigindo-se a casa de D. Isabel, que no dizer dum cronista se fez «forte em suas casas com sua gente que muita tinha, e achando-se António Gonçalves zombado, injuriado e afrontado se tornou para sua fazenda, embarcando-se dali a poucos dias para Lisboa.

Decorridos alguns anos voltou António Gonçalves da Câmara à sua casa da Madeira, sem perder de vista o velho intento de casar com D. Isabel de Abreu. Dirigindo-se esta à vila da Calheta, em companhia de alguns parentes, e passando em frente da moradia de António Gonçalves, tomou este as rédeas do cavalo em que ela montava e auxiliado por gente armada obrigou-a a entrar violentamente em sua casa. Dado conhecimento do estranho caso ao ouvidor do Funchal, por estar ausente o capitão donatário, compareceu este com uma numerosa força armada, tendo esta que defrontar-se com a resistência que ia opor-lhe António Gonçalves, pois se preparava para desobedecer ás ordens do ouvidor, conservando D. Isabel de Abreu presa em sua casa. Estava iminente uma encarniçada luta, em que de ambos os lados havia partidários, parentes e amigos, quando António Gonçalves da Câmara e D. Isabel de Abreu assomando a uma varanda da residência declararam que tinham chegado a um amigável acordo e que podiam retirar-se o ouvidor e a força que o acompanhava.

Quando estes se dispunham a partir, fez D. Isabel de Abreu sentir ao seu prometido esposo que «vindo com o Ouvidor muitos parentes seus e amigos, não era razão que sem comer se tornassem por tão comprido caminho e já que tudo estava em paz os convidasse». Acatando os desejos de D. Isabel de Abreu, mandou António Gonçalves, que «entrasse o ouvidor com a sua gente, alcaides, meirinhos e juízes de todas as vilas e lugares daquela capitania na sala, e arremeteu D. Isabel e apegou-se a ele dizendo e queixando-se que António Gonçalves forçosamente a tinha naquela casa e que lhe valesse com justiça». Na companhia do ouvidor e dos cento e cinquenta homens que compunham a força armada, seguiu D. Isabel de Abreu para o. Funchal, indo, porém, pelo adiantado da hora, pernoitar nas casas de seu cunhado João Esmeraldo, que ficavam na Lombada da Ponta do Sol e eram a sede do morgadio do Santo Espírito.

António Gonçalves da Câmara não era homem para resignar-se a sofrer um novo ludibrio, que ele considerava a maior das afrontas, por parte da mulher que queria conquistar, levado pela violência do amor, pelo orgulho ofendido ou pela ambição de possuir a sua fortuna. Logo se preparou para a desforra e desta vez resolvido ás mais extremas violências. Reuniu imediatamente vários parentes e amigos e muitos homens armados das freguesias vizinhas, sem exclusão de ladrões e assassinos que por ali andavam homiziados, preparado também com dois falcões, que eram peças de artilharia do tempo, afim de atacar casas onde se encontrava D. Isabel de Abreu com os oficiais de justiça. Pôs-lhe apertado cerco, até que, no fim de oito dias, considerando os parentes de D. Isabel os males que podiam resultar desta luta sangrenta, resolveram que a casamento se realizasse, pondo-se deste modo termo uma contenda em que entravam, além de muitos outros, quatro irmãos, dois de cada lado, prestes talvez a mutuamente se darem a morte.

«Chegados D. Isabel de Abreu e António Gonçalves da Câmara, diz Gaspar Frutuoso, à sua fazenda, e recebendo-se ambos, foram feitas grandes festas e bodas, em que comeram todas aquelas pessoas que os acompanharam. Estavam na sala primeira dos seus paços quatro potes de prata fina em quatro cantos dela, que levaria cada hum deles três almudes de agua, com quatro púcaros de prata, cada pote com o seu, presos com cadeias do mesmo e toda aquela gente honrada que se achou naquele banquete, que seriam mais de duzentas pessoas, fora outras, e servidores que eram mais de outros tantos, comeram todos em baixela de prata, sem se entre meter no serviço coisa de barro, nem estanho, onde se gastaram ricos e esquisitos manjares de toda a sorte, como os sabem fazer as delicadas mulheres da Ilha da Madeira, que além de serem mui bem assombradas, mui fermosas, e discretas, e virtuosas são extremadas na perfeição delles, e em todas as invenções de ricas cousas que fazem, não tão sómente em pano com polidos lavores, mas tambem em assucar com delicadas fructas».

D. Agueda de Abreu, irmã de D. Isabel de Abreu, não se conformando com o casamento nem com as violências que o precederam, apresentou suas queixas ao monarca, que mandou à Madeira o desembargador Gaspar Vaz sindicar do estranho caso, resultando serem alguns condenados à morte e outros a desterro. António Gonçalves da Câmara homiziou-se e fugiu depois para Canárias, enquanto sua mulher se recolhia ao convento de Santa Clara. Das Canárias dirigiu-se à Africa e aí prestou valiosos serviços, assinalando-se pela sua bravura e coragem. Isto e mais ainda, por certo, a interferência de sua mãe D. Joana de Eça, que era camareira-mór da rainha, junto do monarca, alcançaram-lhe o perdão e pôde voltar à pátria, onde ainda viveu alguns anos com sua mulher D. Isabel de Abreu».(20)

O estranho e pitoresco episódio, que fica sumariamente narrado, deve ter ocorrido pelo ano de 1531, segundo as indicações fornecidas por alguns antigos nobiliários madeirenses. Não sabemos se João Esmeraldo o Velho, que ao tempo era homem de idade muito avançada, se encontrava então no seu solar da Lombada, mas algures se diz que o filho Cristóvão Colombo estava ausente, batalhando no norte de Africa, onde se distinguiu como esforçado cavaleiro. E de presumir que estas circunstancias aconselhassem D. Isabel de Abreu e os que a acompanhavam, naquela arriscada e porventura trágica aventura, a ceder à brutal imposição do orgulhoso e tresloucado pretendente, consentindo-se, por fim, no casamento, que talvez se tivesse realizado na capela do Santo Espírito, sede e centro do morgadio na Lombada, ainda posta em apertado cerco pelas forças aguerridas de António Gonçalves da Câmara.
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(18) Saud. pag. 197 e seg.
(19) Entre outros, Silva Lial, no vol. 7.° do Panorama, com o titulo de «Bem querer mal fazer».

(20) D. Joana de Eça, mãi de António Gonçalves da Câmara, era camareira mor da rainha D. Catarina e gozava de grande prestigio e influencia na corte, tendo sido por sua indicação que -o padre Luís Gonçalves da Câmara, seu próximo parente, fora nomeado mestre e aio do rei D. Sebastião. D. Joana de Eça foi a restauradora e padroeira do convento da Esperança em Lisboa, e ainda há poucas anos se encontrou nas ruínas da respectiva igreja a pedra que cobria a sua sepultura, tendo nela gravado o seu nome com o titulo de padroeira.

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