Lombada dos Esmeraldos (VI) – João Esmeraldo e o futuro descobridor da América

Existe na cidade do Funchal uma via pública, que desde séculos conserva o nome de Rua do Esmeralda. Até os princípios do ano de 1877, erguia-se nela uma casa apalaçada, com a arquitectura característica das edificações; do século XV, que era uma ampla construção de dois andares, encimada por um vasto eirado, e que tinha para o tempo o aspecto duma sumptuosa habitação aristocrática, destinada à residência de nobres e opulentos moradores. Dessa aparatosa construção, que em grande parte se conservou até à idade contemporânea, ficaram interessantes fotografias, inúmeras vezes reproduzidas em muitos livros e revistas, existindo ainda uma característica janela bipartida, em estilo renascença, que hoje se encontra artística e devotadamente colocada nos jardins da magnifica Quinta da Palmeira, na Estrada da Levada de Santa Luzia, propriedade do inteligente e benemérito industrial Henrique Hinton, que ali conserva com a maior veneração e apreço aquela preciosa relíquia do passado.

Ainda existem contemporâneos que viram e conheceram de perto essa casa, que se levantava entre as ruas do Sabão e do Esmeraldo, com as suas frontarias para as mesmas ruas e no local em que actualmente se abre a Travessa ou Rua de Cristóvão Colombo. 0 flamengo João Esmeraldo foi possuidor e provavelmente o próprio edificador dessa antiga e nobre residência, segundo vários livros de linhagens o atestam, não podendo aduzir-se senos argumentos, que contradigam essa afirmativa.

Diz uma antiga e ininterrupta tradição, corroborada pela autoridade dos vários escritores, que o futuro descobridor da América foi, nessa histórica casa, hóspede de João Esmeraldo, com quem manteve relações da mais afectuosa estima. 0 caso vem especialmente tratado, com largueza e com mestria, na interessante Memória sobre a residência de Cristóvão Colombo na Ilha da Madeira, devida à pena culta e elegante do ilustre madeirense Agostinho de Ornelas, distinto diplomata e membro da Academia das Ciências de Lisboa. Anteriormente a Agostinho de Ornelas, abundando na mesma opinião e com a grande autoridade do seu nome, também se ocupou deste assunto o abalizado professor e académico dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, o escritor que mais larga e proficientemente se tem ocupado das coisas históricas deste arquipélago, de que são prova incontestada as preciosas e eruditas anotações que acompanham a edição das Saudades da Terra de 1873, além de outros valiosos trabalhos.

Quase todos os autores, que escreveram acerca da vida misteriosa e aventureira de Cristóvão Colombo, afirmam que ele casara com D. Filipa Moniz, filha de Bartolomeu Perestrelo, primeiro capitão donatário da ilha do Porto Santo, e que ali nascera, por 1475, o seu filho primogénito e sucessor Diogo Colombo, sustentando também que o navegador tivera uma permanência mais ou menos demorada na Ilha da Madeira, como é natural que houvesse acontecido, sendo então, porventura, que estreitaria relações amistosas com o fidalgo flamengo que deu o nome à rua do Esmeraldo. Não há motivos para enjeitar a afirmativa do venerável bispo D. Bartolomeu de Las Casas, que na sua conhecida obra Historia de las Indias, publicada há cerca de cinquenta anos, nos diz que Diogo Colombo nasceu na ilha do Porto Santo, acrescentando que recebera esta informação da própria boca do filho do descobridor da América. Muitos outros autores têm sustentado igual opinião, irão sendo para estranhar que a pessoa, que agora traça estas linhas e quando exerceu um cargo oficial naquela ilha no último quartel do século XIX, houvesse recebido vários pedidos da cópia autentica do assento de nascimento de Diogo Colombo, tão generalizada se tornara essa plausível opinião.

Como já atrás fica dito, era a Madeira, nessa época, não só o mais importante empório comercial que se formara nas novas terras descobertas e portanto o mais apetecido ponto de atracção para os forasteiros que deixavam os seus países em busca de ambicionada fortuna, mas também o centro quase forçado a que convergiam todos os que fanhosamente se entregavam ás explorações marítimas, tornando-se o Funchal uma verdadeira escola de navegação e onde se podiam colher as mais exactas informações e as mais detalhadas noticias acerca dos mares, ilhas e continentes, cite muitos pretendiam avidamente devassar e descobrir. E muito de presumir que Cristóvão Colombo, tendo vivido largo tempo em Lisboa e feito o seu tirocínio de navegador com marinheiros portugueses, procurasse também visitar a Madeira, afim de obter novos elementos para a realização do gigantesco plano, que certamente há muito lhe assediava o espírito.

A data mais provável da permanência de Colombo neste arquipélago está compreendida no período decorrido de 1743 a 1745, sendo no primeiro destes anos, que João Esmeraldo aforou ou comprou a Rui Gonçalves da Câmara, como já fica referido, as terras da Lombada da Ponta do Sol. Não será, pois, inteiramente inverosímil aceitar-se a possibilidade de ter o futuro descobridor da América visitado aquela propriedade, a admitir-se as estreitas relações de amizade, que entre os dois se mantinham, chegando a afirmar-se que João Esmeraldo dera ao seu segundo filho o nome de Cristóvão, como homenagem ao amigo, que, ao tempo, já era o ilustre e festejado descobridor do Novo Mundo.

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