Irmã Angelina Cabral – Vida dedicada ao Lar da Nossa Senhora da Conceição

irmaangelina-cabral.jpgA vida da Irmã Angelina Cabral, natural da Ponta do Sol, tem sido dedicada à religião, aos valores morais e à formação das pessoas. A obra, essa tem vários nomes. Nomes de várias crianças que cruzaram com o seu caminho, a quem ajudou, transmitiu os valores em que baseia a sua vida, encaminhou para melhores destinos, incluindo para cursos universitários.

Há cerca de vinte anos à frente do Lar da Nossa Senhora da Conceição, a irmã Angelina diz que está feliz com o que concretizou ao longo dos anos. E continua a lutar e a esperar o melhor para as suas crianças. Para elas, quer o melhor futuro possível e as tem guiado nesse sentido.

A vida da Irmã Angelina foi, desde sempre, dedicada a ajudar os outros. Desde criança que a vocação a chamava, como recorda numa conversa que dá início à nova rubrica da “Olhar”, intitulada “Vida e Obra”.

Apesar de não querer nunca substituir a mãe de cada um dos meninos ou adolescentes que ali se encontram, a religiosa acaba por ser a pessoa a quem recorrem para um conselho. Acaba por ser “mãe” para toda a obra. O seu objectivo é fazer as crianças sentirem e saberem que têm uma mãe biológica e que devem estar com ela dentro do possível. Não sendo possível, sabem que têm na irmã Angelina um ombro amigo.


Vocação trabalhada desde os dez anos de idade

Quanto ao seu percurso de vida, a nossa entrevistada recorda que sentiu o apelo da vocação quando tinha cerca de dez anos. “Esta foi uma missão muito pensada e trabalhada. Era pequena, tinha dez anos, e disse à minha mãe que queria acompanhar os meus irmãos que iam de porta em porta ajudar jovens. Mas a minha mãe nunca me deixava ir.

Depois, quando tinha 16 anos, realizaram-se uns encontros de jovens no Funchal e então, passei a acompanhá-los”. Conta-nos que aos 17 anos tinha o seu namorado, “estava segura e encaminhada, como dizia a minha mãe”. No entanto, no seu coração, havia um amor mais forte. “Vinha muito ao Funchal, falava muito com as Irmãs, ia aos encontros. Aos 20 anos, estava já decidida que queria entrar para a Congregação Franciscana. Os meus pais disseram que isso só aconteceria quando tivesse 21 anos”. Assim, e “com muita calma, esperei pelo meu 21º aniversário e depois vim para a Congregação. Por isso, é como lhe digo, foi uma decisão muito pensada, trabalhada e emadurecida, para eu poder chegar aqui”.

Quando entrou para a Congregação das Irmãs Franciscanas, as suas superiores “deram-me sempre trabalhos com crianças”. Gostava muito de trabalhar com jovens, mas acabou por encarregar-se dos mais novos. Recorda-se que a sua formação religiosa foi feita consecutivamente. “Em dois anos, preparei-me para receber o hábito. Depois disso, fui para África para trabalhar com um grupo de jovens africanas. Trabalhámos muito bem. Era um grupo heterogéneo e muito unido. Trabalhávamos em croché, em bordado, na ajuda da lavagem dos doentes…” Nessa altura, a Irmã Angelina ainda não tinha o curso de enfermagem, por isso só ajudava as Irmãs na limpeza dos blocos de doentes.


Doença fez com que regressasse a Portugal

Tempos depois, a Irmã Angelina Cabral adoeceu devido ao clima, “que era muito forte”. Regressou a Portugal. Nessa altura, deu-se o 25 de Abril. Entretanto, completou o curso de enfermagem. Contudo, as suas superiores quiseram que a Irmã Angelina tirasse o curso de Formação Feminina. “Fui para Roma, onde fiz a licenciatura e mestrado em Filosofia e ainda uma especialização em Psicopedagogia”, que a tem servido de muito no seu trabalho de “conduzir” as pessoas do Lar.

Depois dos cursos, a sua supervisora geral quis que a nossa entrevistada fosse colocada no Colégio de Santa Teresinha. “Mas eu não gostava de estar ali, porque os meninos eram ricos e eu queria trabalhar com meninos a quem eu pudesse dar alguma coisa. Entretanto, apareceu a vaga aqui no Lar e há vinte anos atrás, vim para cá”.


Trabalho no lar tem sido gratificante

irmaangelina-cabral1.jpgO seu trabalho no lar tem sido “muito gratificante”. Como se recorda, na altura em que entrou para aquela instituição, “as crianças não viviam numa sociedade aberta. Eram muito fechadas, apenas saíam para ir à escola. Eu entendia que era pouco, que elas tinham de ir à praia, passear, fazer actividades extra-curriculares, como aprender línguas e informática, por exemplo”. E assim passou a ser, com o tempo. Apostou também nas actividades desportivas, como o futebol, o andebol, judo, basquetebol e natação, modalidades em que chegou a inscrever as suas crianças, consoante as suas idades.

A Irmã Angelina tem presente ainda as dificuldades que sentiu em implementar esta nova filosofia de trabalho e de mentalidades. “Foi muito difícil na medida em que as crianças estavam guardadas e, de repente, ficaram soltas. Elas fizeram muita trapalhada, as coisas não deram logo certo”, recorda com um sorriso. “Mas fomos trabalhando, reunindo, até que começamos a endireitar os grupos”.

Em suma, a Irmã Angelina apostou fortemente na formação pessoal e social dos elementos que compõem aquele lar. Mais do que isso, quis ajudar os jovens na sua formação ética, moral e religiosa. “As crianças não viam nada de bom em estar aqui, o que não era fruto das irmãs, mas sim fruto de um regime de internato do qual as irmãs não conseguiram libertar-se. E eu consegui. Lembro-me que fui mal vista nem bem aceite inclusivamente pelas jovens que estavam na instituição. Mas fui trabalhando e elas começaram a ver que o que eu queria para elas era o Bem, que era dessa forma que elas próprias queriam ser. Elas não tinham uma socialização”, recorda.

Uma das mensagens que lhes gosta de transmitir é que o “mundo jovem nunca tem fim na educação e que os valores principais para os jovens e para as jovens são valores morais, éticos, religiosos e sociais são imprescindíveis. Unindo as competências sociais e morais, fizemos daqui jovens primores, que pareciam flores. Chamava às jovens de flores”, disse-nos ainda.

Consciente de que muitas das pessoas que ali estão em regime de internato ou semi-internato não estão na situação em que queriam estar, a irmã Angelina Cabral pensa que apesar disso, enquanto estão ali, são felizes dentro do possível. “Fomos trabalhando de modo a que conseguíssemos que elas vissem esta casa como a sua casa. Quem quer ir todos os fins-de-semana a casa pode fazê-lo, porque não recebemos cá visitas. Quem quer ver a família vai e se não quiser voltar e ficar em casa dos pais, pode fazê-lo. Mas elas voltam sempre”, sublinha.

“Tratamos sempre de não ser mães destas crianças”

Instada a comentar se as Irmãs do lar de Nossa Senhora da Conceição substituírem, em certa medida, o papel de mães, a religiosa respondeu que “tratamos sempre de não ser mães deles. Eles têm a sua mãe biológica e que têm de contactar com elas, se estiverem vivas”. De qualquer modo, muitas das crianças identificam o papel maternal nas irmãs. A irmã Angelina dá o exemplo de uma jovem de vinte anos, que já trabalha e que pode procurar um sítio para viver, mas que se recusa, porque sente que aquela é a sua casa e, por isso, pede sempre à Irmã Angelina para a deixar ficar. “Não consigo dizer não”, confessa a nossa entrevistada. Muitas dizem que “esta é a casa delas”, sublinha.

Refira-se que aquele lar acolhe de momento 60 crianças e adolescentes, entre os cinco anos e os 23 anos. Com este grupo, a instituição trabalha no sentido de lhes dotar de capacidades de formação e sociais para que se sintam preparadas para a sociedade e não se sentirem diferentes de ninguém. “Temos conseguido. Temos casos de jovens que viveram cá, que tiraram os seus cursos, que já estão casadas ou vivem em apartamentos, a dar aulas, por exemplo”.

Por fim, a irmã Angelina diz estar satisfeita com a sua “obra de vida”. Nas suas palavras: “estou satisfeita. Sinto-me feliz porque sei e vejo as minhas crianças e jovens a viverem comigo e com a equipa de formação com felicidade”.

FonteRevista Olhar, do Jornal da Madeira, artigo de Paula Abreu

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