Lombada dos Esmeraldos (V) – João Esmeraldo

É sabido que os descobrimentos e conquistas marítimas iniciadas no alvorecer do século XV despertaram o interesse e a curiosidade da Europa inteira. Não faltaram então espíritos ambiciosos e irrequietos, que, deixando o rincão natal, se arriscassem aos azares da sorte, procurando nas longínquas terras descobertas a glória e as vantagens materiais, que a pátria não podia de modo algum dispensar-lhes.

Se a muitos impulsionava apenas o amor da aventura, e desejo do imprevisto e do desconhecido, o ardor pelas empresas e façanhas arriscadas, é todavia indubitável que a maior parte ia atraída pela sede das riquezas, pela conquista do veio de ouro, que mais uma vez ponha em sobressalto as ambições dum tão grande número de audaciosos aventureiros. Sendo a Madeira o mais importante empório comercial, que rios tempos primitivos da colonização se formou nos nossos domínios ultramarinos, foi também o mais apetecido ponto de atracção para os forasteiros que demandavam as novas plagas descobertas (14).

Um deles foi João Esmeraldo. Não gozando os privilégios de primogenitura, que era o grande apanágio das casas nobres, lançou-se nos riscos duma suspiradafortuna a tentar numa ilha afastada, que já então mantinha relações comerciais com a Flandres, especialmente pela exportação do precioso e apreciado produto, que era o açúcar madeirense. Conjecturamos que tivesse aportado ao Funchal por meados do terceiro quartel do século XV.

Decorrendo então um dos períodos mais movimentados da colonização e povoamento do arquipélago, eram bem recebidos todos os nacionais e estrangeiros que viessem colaborar na exploração das terras incultas mas ferocíssimas, arrancando pelo trabalho e pela inteligência a riqueza e a prosperidade que elas lhes ofereciam. Se a essas apreciáveis qualidades vinha juntar-se a condição de origem fidalga, tão exageradamente apreciada na época, tinham os novos colonizadores campo aberto para a satisfação das suas mais largas aspirações.

Assim teria sucedido a João Esmeraldo. Da sua proveitosa e esclarecida actividade, dão-nos eloquente testemunho os importantes haveres adquiridos, dos quais conhecemos o aforamento da Lombada, a instituição dos dois morgadios, com a sua igreja e solar, a casa apalaçada da rua do Esmeraldo e a larga exploração agrícola, com muitas dezenas de colonos e escravos, dos vastos terrenos da Ponta do Sol. Dos seus títulos de nobreza são provas concludentes a concessão dos foros de fidalgo, outorgados pela Carta Régia de 13 de Agosto de 1511, e mais ainda o alvará de Brasão de Armas, mandado passar por D. Manuel a 16 de Maio de 1522, em que se faz referencia à Carta anterior e em que se reconhecem e ratificam os privilégios de nobreza de que gozavam os seus antepassados (15) Tinha no seu país de origem o nome de Jeanin Esmeraut, que depois se aportuguesou no de João Esmeraldo, cujo apelido se transmitiu aos seus numerosos descendentes, sendo tronco de algumas das mais distintas famílias desta ilha.

Parece ter nascido na província da Picardia, que juntamente cora as de Artois, Hanaut, etc. conservavam então a denominação genérica de Flandres e desta circunstância provém o ser conhecido pelo Flamengo. A sua família era aliada com as nobres casas de Delavaigne, Fienes, Nedouchel e outras, possuindo o importante senhorio de Fraxelles.

A Lombada da Ponta do Sol, que começou a chamar-se do Esmeraldo e depois dos Esmeraldos, era nos fins do século XV, e continuou a ser até os nossos dias a mais vasta e rica propriedade rústica de todo o arquipélago, apesar dos cerceamentos que sofreu em diversas épocas. Rui Gonçalves da Câmara, o seu primeiro possuidor, não se alargou muito, como já ficou acentuado, na expansão cultural e fabril do seu latifúndio, porque as naturais tendências do seu espírito a isso o não compeliam ou porque dificuldades insuperáveis o impedissem de realiza-lo, ou ainda porque aspirava as mais altas honrarias, deixando â outros a activa e fecunda exploração, que essas terras estavam imperiosamente exigindo. Rui Gonçalves da Câmara aforou a João Esmeraldo toda a Lombada, propriedade ainda então intacta e compreendida entre as ribeiras da Caixa e da Ponta do Sol, alargando-se desde a orla do Oceano até as mais altas eminências da serrania. O aforamento realizou-se pela importância de 600.000 rs. e a renda vitalícia anual de 150.000 rs., o que representava uma soma muito avultada para o tempo. (16)

Sendo ponto averiguado que Rui Gonçalves da Câmara transferiu a sua residência para São Miguel no ano de 1474, deve supor-se que aquele aforamento se teria realizado antes da sua partida para aquela ilha, havendo muitas probabilidades que militam a favor desta hipótese, embora se indiquem outras datas para a celebração do referido contrato. É esta a opinião do douto conselheiro Agostinho de Ornelas, sucessor na administração dum dos vínculos instituídos por João Esmeraldo, que estudara este caso com o maior interesse e à vista de documentos existentes no importante cartório da sua casa, assinalando o ano de 1473 como o do aforamento, que alguns chamaram venda, feito por Rui Gonçalves da Câmara a João Esmeraldo.

0 fidalgo flamengo consagrou-se diligentemente à valorização das terras aforadas, que na realidade constituíam uma posse perpetua e incontestada,tornando-as um centro de grande e produtiva actividade agrícola e fabril, com o largo amanho das glébas incultas, o cuidadoso aproveitamento das águas e amontagem de vários engenhos e alçapremas. 0 autor das Saudades da Terra, embora hiperbálicamente e como já fica referido, afirma que João Esmeraldochegou a produzir vinte mil arrobas de açúcar em cada ano, para o que dispunha de oitenta escravos, casas de fabrico e de purgar, abegoarias e outras indispensáveis instalações, sem contar com os muitos cultivadores e colonos livres, que seriam certamente os seus melhores auxiliares nesta tão grande e lucrativa empresa. Esmeraldo comprou ou edificou na vila do Funchal e na rua que tomou e ainda conserva o seu nome uma grande casa de moradia, que o cronista diz ser «um. aposento antigo muito rico, com casa de dois sobrados e pilares de mármore nas janelas e em cima seus eirados com muitas fressuras». Da construção da casa solarenga da Lombada, da edificação das capelas e da instituição dos morgadios, devidas à fecunda iniciativa do fidalgo flamengo, nos ocuparemos em capítulos especiais. Constituiu família e foi tronco de larga descendencia, (17) tendo morrido, em idade muito avançada, a 19 de junho de 1536 e sido sepultado na capela do Santo Espirito, por ele fundada no ano de 1508.
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(14) De muitos desses estrangeiros se conservaram os nomes na história da colonização madeirense e alguns deles foram troncos de distintas famílias, sendo-lhes reconhecidos os foros de nobreza de que gozavam nos seus paises. Podemos mencionar Simão Acciaioli, João e Henrique de Betencourt, Pedro de Lemilhana Berenguer, João Drumond, António Espinola, Urbano Lomelino, António Leme, João Rodrigues Mondragão, João Salviati, João Valdavesso, João Baptista, Rafael Catanho, Adrião Espranger, André Gonçalves de França, Lucas Salvago, Fr;incisco Soares Sesmeiros e ainda outros.
(15) « Dom Manuel, por graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, d’ aquem e d’ além mar em Africa, Senhor da Guiné e da Conquista Navegação e Comércio da Etiopia, Arábia, Pérsia e India, a quantos esta nossa carta virem, fazemos saber que João Esmeraldo, fidalgo da nossa casa e morador na nossa ilha da Madeira, nos fez informação como êle descendia da linhagem e geraçã dos Esmeraldos e dos Dallavaigne e da casa Fienes da geração dos de Nodouchel, os quais todos nas partes da Picardia, Flandres e Brabante são nobres e fidalgos da antiga linhagem, pedindo-nos, por mercê, que pela memória dos seus antepassados se não perder, gouvir e gozar da honra das armas que pelos merecimentos de seus serviços ganharam e lhe foram dadas e assim dos privilégios, honras, graças, mercês que por direito por bem delas lhe pertencem, lhe mandassemos dar nossa carta das ditas armas que estavam registadas em os livros dos registos das armas dos nobres e fidalgos dos nossos reinos que tem Portugal nosso principal Rei de Armas, a qual informação vista por nós e como nós somos certos o conteúdo nela sêr verdade por uma carta patente asselada com o sêlo do Império, pendente e assinado por os do seu Conselho e com outra carta de Armas patente assinada por Tosão de Ouro Rei de Armas, e asselada, na qual se contem como direitamente êle João Esmeraldo descende das ditas gerações e linhagens, que as suas armas lhe pertencem de direito as quais lhe mandamos dar em esta nossa carta com seu brazão, elmo e timbre, como em meio desta carta são divisadas, e assim como fiel e verdadeiramente se acharam divisadas e registadas nos livros do dito Portugal Rei de Armas, as quais armas são as seguintes: «o campo esquartelado, o primeiro de prata com uma banda preta; o segundo de azul com uma faixa de ouro carnelea ; o terceiro de prata com um leão preto e por cima dêle um filete vermelho em banda, de redor dele bilhetas pretas; o quarto de azul e uma banda fimbrada de vermelho: Elmo de prata aberto guarnecido de ouro, paquife de ouro e de azul e por timbre um leão preto, o qual escudo, armas e sinais possa trazer e traga o dito João Esmeraldo, assim como as trouxeram e delas usaram seus antepassados… queremos e nas apraz que haja êle e todos seus descendentes todas as honras, privilégios e liberdades, graças, mercês, isenções e franquezas que hão e devem ter os fidalgos nobres de antiga linhagem… Dada em a nossa e sempre leal cidade de Evora a dezaseis de Maio. El-Rei o mandou pelo bacharel António Rodrigues Portugal seu Rei de Armas Principal, Pedro de Utra escrivão da nobreza a fez. Ano de Nosso senhor Jesus Cristo de mil quinhentos vinte e dois». (Do «Nobiliário», de Henrique Henrique de Noronha, Manuscrito existente na Biblioteca Municipal do Funchal).
(16) Esta renda anual e perpétua de 150.000 rs. ficou incorporada no usufruto do morgadio de Água de Mel, na freguesia de Santo António do Funchal, instituído por D. Maria de Betencourt, mulher de Rui Gonçalves da Câmara, na pessoa de seu sobrinho Gaspar de Betencourt. Na sucessão de vários administradores coube esta casa vinculada a D. Guiomar Madalena de Vilhena Betencourt de Sá Machado, de quem foi universal herdeiro e sucessor João Carvalhal Esmeraldo de Atouguia e Câmara, décimo administrador do vinculo do Santo Espírito da Lombada dos Esmeraldos, como adiante se verá, passando assim essa renda de 150.000 rs. a fazer parte dos rendimentos deste último morgadio.
(17) João Esmeraldo contraiu primeiras núpcias com D. Joana Gonçalves da Câmara, neta de João Gonçalves Zargo e filha de Martim Mendes de Vasconcelos e de D. Helena Gonçalves da Câmara, e casou segunda vez com Águeda de Abreu, filha de João Fernandes de Andrade, mais conhecido pelo nome de João Fernandes do Arco, por ser senhor de muitas terras no Arco da Calheta, onde tinha casa solarenga e ali instituiu um morgadio. Do primeiro matrimónio nasceu João Esmeraldo e do segundo Cristóvão Esmeraldo, que foram os primeiros administradores dos vínculos do Vale da Bica e do Santo Espírito.

 

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