Lombada dos Esmeraldos (IV)

IV – Rui Gonçalves da Câmara

Não são concordes as opiniões dos linhagistas com respeito ao lugar do nascimento de Rui Gonçalves da Câmara, dando-o alguns como natural do continente português e afirmando outros que foi o primeiro filho de João Gonçalves Zargo nascido na Madeira (11). Não andará muito distanciado da verdade quem fixar, nos fins do primeiro quartel do século XV ou nos princípios do quartel seguinte a data aproximada do seu nascimento. Nas nossas lutas, com os mouros, no norte de África, tomou parte em vários recontros com seu irmão João Gonçalves da Câmara, segundo donatário do Funchal, e encontrou-se nos cercos de Arzila e Tanger, distinguindo-se sempre corno valente e esforçado cavaleiro (12).

A sua vida agitada de soldado ou quaisquer outras circunstancias para nós desconhecidas não o deixaram entregar-se fanhosamente à cultura da extensa Lombada, cujas terras virgens, de relevo muito acidentado e quase totalmente cobertas de basto e fechado arvoredo, exigiam um prolongado e gigantesco esforços que mal se compadecia com os minguados recursos de que poderia dispor-se nos primeiros anos da colonização madeirense.

Pouco se sabe acerca da primitiva exploração agrícola empreendida por Rui Gonçalves da Câmara, que era, por certo, homem de mais largas aspirações, cabendo sem duvida ao seu sucessor o estado de grande prosperidade, que rapidamente atingiu a Lombada da Ponta do Sol.

O segundo capitão donatário da ilha de São Miguel João Soares de Albergaria, sobrinho de Gonçalo Velho Cabral, veio à Madeira pelos anos de 1470 acompanhar sua mulher D. Beatriz Godiz, que se achava atacada de grave enfermidade e que faleceu pouco tempo depois da sua chegada ao Funchal.

Informa-nos o doutor Gaspar Frutuoso que Soares de Albergaria, em virtude dos «muitos custos» que fizera e em atenção aos serviços que lhe dispensaram o capitão donatário da Madeira e seu irmão Rui Gonçalves da Câmara, resolveu vender a este a capitania de São Miguel «por seiscentos mil reis, segundo uns, e por setecentos mil reis e cem mil reis de sócos, segundo outros, tendo-se por mais certo que a compra se efectuou por dois mil cruzados em dinheiro de contado e quatro mil arrobas de assucar» (13). Esta venda foi confirmada, a 10 de Março de 1474, pela infanta D. Beatriz, como tutora e curadora de seu filho o duque D. Diogo, grão-mestre da Ordem de Cristo. Passou-se então Rui Gonçalves da Câmara, com sua mulher, filhos e outros indivíduos que o quiseram acompanhar, à ilha de São Miguel a assumir o governo da sua capitania, sendo ali donatário no período aproximado de vinte e quatro anos, vindo a falecer em Ponta Delgada em 1497 ou 1498. Deixou boas tradições na administração da sua donatária e foi tronco das casas nobres dos condes da Ribeira Grande, de Vila Franca e ainda outras.

Antes, porém, de abandonar a Madeira fez a João Esmeraldo o aforamento perpétuo da Lombada da Ponta do Sol, como abaixo vamos ver.De Rui Gonçalves da Câmara, traça o padre G. Frutuoso este rápido e pitoresco perfil: «Era bem apessoado, grande e grosso, discreto e solicito em fazer cultivar e povoar a terra, visitando-a pessoalmente muitas vezes, só, a cavalo, vestido com uma peliça de martas e uma touca na cabeça, como naquele tempo se costumavam … e com um cão grande de traz de si… e algumas vezes andava em mula … ».
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(11) o primeiro capitão donatário do Funchal João Gonçalves Zargo, ao iniciar o povoamento da sua capitania, vinha casado com Dona Constança Rodrigues de Sá ou de Almeida, trazendo os filhos mais velhos João Gonçalves da Câmara, sucessor no governo da donatária, Helena Gonçalves da Câmara e provavelmente Rui Gonçalves da Câmara, que alguns nobiliários também dão como nascido na Madeira.
(12) Vid. «A Madeira e as Praças de Africa», 1933, pelo tenente-coronel Alberto Artur Sarmento.
(13) Saudades da Terra, (Ponta Delgada, 1926) Livro IV, Cap. 66.

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