Lombada da Ponta do Sol ou dos Esmeraldos III

lomdada1.jpg

Os primitivos povoadores, ao aportarem às costas desta ilha, tendo deixado ancorados os navios da expedição, na baía que posteriormente se chamou do Funchal, empreenderam sem demora uma exploração sumaria ao longo do litoral, tomando um rápido conhecimento da terra ignorada, e assinalando e delineando desde logo os lugares mais apropriados para o estabelecimento dos futuros núcleos de população. Dessa exploração, capitaneada por João Gonçalves Zargo, deixou-nos Gaspar Frutuoso uma pitoresca e talvez hiperbólica descrição, (7) da qual vamos destacar os períodos referentes ao lugar da Ponta do Sol: « … e chegou a uma ponta que se faz abaixo huma legoa, e entra muito no mar; e, porque na rocha que está sobre a ponta se enxerga de longe e se vê claro huma vea redonda na mesma rocha com uns rayos que parece sol, deolhe nome o capitam a Ponta do Sol; onde tambem traçou uma villa, que depois se fundou, a primeira da sua jurisdição. Aqui está a nobre e rica fazenda, que se diz a Lombada do Esmeraldo, tão celebre por nome como por fama (8), pelos muitos assacares que nella se recolhem, que foi ano em que deo vinte mil arrobas delle : a qual Lombada o capitam tomou para seus filhos, e depois correo tais trances, que agora nenhum delles a possuhe, por se dividirem e a venderem» (9).

Em outro lugar da mesma obra, refere-se o historiador das Ilhas à Lombada dos Esmeraldos nos seguintes termos, que merecem sêr aqui arquivados:- … está a Lombada de João Esmeraldo, de nação genoez, a qual chega do mar à serra, de muitas canas de assacar, e tão grossa fazenda que já aconteceo fazer João Esmeraldo vinte mil arrobas de sua lavra cada anno; e tinha como outenta almas suas captivas, entre mouros, mulatos e mulatas, negros e negras, e canarios. Foi esta a mayor casa da ilha, e tem grandes casarias de aposento, engenho, e casas de purgar, e igreja. E depois do falecimento de João Esmeraldo, ficou tudo a seu filho Cristovão Esmeraldo, que o mais do tempo andava na cidade do Funchal sobre uma mulla muito formosa, com outo homens detraz de si, quatro de capa e quatro mancebos em corpo, filhos de homens honrados muito bem tratados: e trazia grande contenda com o capitam do Funchal sobre quem seria Provedor d’Alfandega d’El-Rey, que he uma rica cousa de renda de Sua Alteza, e ricas casarias.» (10)

Por esta, embora exagerada narrativa, se vê que João Gonçalves Zargo, numa primeira visita de rápida exploração ou em subsequentes visitas, como é mais provável que tivesse sucedido, descobriu na Lombada da Ponta do Sol, mais tarde chamada dos Esmeraldos, os indispensáveis requisitos para ser transformada em uma vasta e rica herdade, reservando-a inteiramente para seus filhos, que sem duvida a converteriam num dos centros de maior actividade industrial e comercial, que então existiam em toda a ilha. É de presumir-se que as condições orográficas e hidrográficas daquela Lombada, a sua grande extensão, a fera cidade do seu solo e a benignidade do clima, tivessem ferido a atenção dos antigos exploradores, sendo então concedida a preferência ao chefe da primeira colonização madeirense.

Estendia-se da orla do oceano até o elevado planalto do Paul da Serra; tendo portos de desembarque, lombas e encostas abrigadas dos ventos, serras de matagais e florestas, águas cristalinas e abundantes, que lhe davam os foros duma propriedade privilegiada e certamente apetecida por um grande número de povoadores.

Compreendia então o sítio que hoje propriamente se chama a Lombada dos Esmeraldos, o sítio do Jangão e o sítio do Lugar de Baixo, em que ao presente vivem cerca de quatro mil e duzentos habitantes, em casais dispersos e distanciados uns dos outros, cuja vasta área correspondia aproximadamente ás duas terças partes da actual freguesia da Ponta do Sol, estendendo-se «do mar à serra», no dizer de vários documentos antigos. Pelo lado oriental tinha coma limite a Ribeira da Caixa, na partilha da freguesia da Tabúa, e pelo lado ocidental a Ribeira da Ponta do Sol, confinando, ao norte, como já fica dito, com os acidentados montes que entestam com a planície do Paul da Serra e ao sul, com as águas do Oceano Atlântico.

Toda a Lombada coube em doação a Rui Gonçalves da Câmara, segundo filho varão do capitão donatário do Funchal João Gonçalves Zargo, ficando ao primogénito João Gonçalves da Câmara a sucessão na donatária com todos os privilégios que lhe andavam anexos. Embora nos escasseiem elementos seguros para o afirmar, parece indubitável que Rui Gonçalves não se dedicou com grande entusiasmo ao cultivo das suas terras, das quais fez venda ou antes aforamento ao fidalgo flamengo João Esmerado, como abaixo mais largamente se dirá. Foi este que procedeu ali a uma larga exploração agrícola, atraindo um número considerável de colonos e cultivadores, fundou as capelas de Santo Amaro e do Santo Espírito, instituiu os dois importantes morgadios do Santo Espírito e do Vale da Bica e fez construir a primeira casa solarenga da Lombada.

Não repugna acreditar que o grande navegador Cristovão Colombo, amigo devotado de João Esmeraldo e de quem foi hospede na então vila do Funchal, houvesse honrado este lugar com a sua presença, embora não tivesse ainda adquirido o nome ilustre que o havia de imortalizar. Aproximadamente por essa época, ter-se-ia dado o celebrado rapto de D. Isabel de Abreu, que teve seu epílogo nesta Lombada, nas casas de João Esmeraldo, cunhado da protagonista dessa façanha.

Estes terrenos permaneceram intactos, em regímen de vinculação, na posse e usufruto dos sucessivos administradores dos dois morgadios, sendo seus últimos senhorios directos o segundo Conde do Carvalhal, com a Lombada dos Esmeraldos e o Lugar de Baixo, e o conselheiro Aires de Ornelas, com o sítio do Jangão. Os primeiros foram vendidos em hasta pública, no ano de 1893, à firma comercial do Funchal A. Giorgi & C.ª, e os segundos cedidos em 1920, por venda amigável, aos respectivos caseiros e meeiros.

Em 1923 surgiu uma proposta de compra das terras da Lombada e do Lugar de Baixo, destinada à revenda das glebas aos colonos e rendeiros delas. Essa revenda, simulada ou fictícia, foi-se realizando pelo pretenso comprador, vendose os proprietários, que eram súbditos estrangeiros, compelidos a recorrer ao governo da sua ilação, para haver o valor ou a entrega das suas propriedades. 0 governo português, depois dum prudente e consciencioso estudo do assunto, resolveu expropriar àqueles terrenos e indemnizar os seus senhorios dos graves prejuízos que lhes tinham sido injustamente causados. Conserva-se o estado na disposição de ceder essas terras, por venda e em condições favoráveis, aos antigos cultivadores, aguardando-se apenas o preenchimento de certas formalidades, para a celebração dos respectivos contratos. Por ocasião dessa expropriação, o governo português cedeu gratuitamente à junta Geral do Distrito e à Câmara Municipal da Ponta do Sol alguns tratos de terrenos, destinados à construção de estradas, e à Diocese do Funchal, na pessoa do respectivo prelado, a capela do Santo Espírito para ser aplicada ao exercício do culto, como sempre o fora em todos os tempos, ficando reservado ao Ministério das Colónias e para uso das nossas missões ultramarinas as diversas dependências que constituíam o antigo solar dos morgados Esmeraldos. Dos diversos pontos, sumariamente expostos neste capítulo, nos ocuparemos, com o devido desenvolvimento, em capítulos subsequentes.
________________
(7) «Saudades da Terra», ed. de 1873, pág. 6
(8) Não deixa de ser curioso que Gaspar Frutuoso, para enaltecer a Lombada da Ponta do Sol pela sua exuberante
fertilidade, se apropriasse da conhecida frase mais celebre por nome que par fama que Camões (Est. 5.ª, Cant. V)
aplicou à Madeira, exaltando-a e consagrando-a, frase que, como é sabido, tem dado motivo a muitos controvertidos
juízos, em que Manuel Correia (1613), Faria e Sousa (1619), Garcez Ferreira (1731), José Agostinho de Macedo (1820),
Dr. José Maria Rodrigues (190.5), Epifânio da Silva Dias (1908), Alfredo Pimenta (1931) e ainda outros a comentaram e
interpretaram segundo o sabor das suas opiniões …
(9) Saud. pág. 68.
(10) Saud. pág. 95.

Anúncios

%d bloggers like this: