Cavaleiro de Santa Catarina I

Obra de João dos Reis Gomes, editada em 1941, que aborda uma tradição/lenda da população da Ilha da Madeira, «misteriosa figura» que se chamava Henrique Alemão ou o cavaleiro de Santa Catarina, personagem que saiu de Varna até a Madeira por volta do povoamento do Arquipélago da Madeira.

Nela João dos Reis Gomes salienta que a voz do povo madeirense desde há muito afirmou – agora anda a lenda em parte alterada e diluída – que, nos primeiros tempos da colonização da Ilha, aqui se estabeleceu um estrangeiro de estirpe real e vulto histórico de renome, renome derivado, ao mesmo passo, de suas qualidades pessoais, entre elas a Fé, a magnanimidade e a coragem, e dos trágicos sucessos militares, religiosos e políticos em que se achou envolvido.

Num dos capítulos o autor aborda o sesmeiro da madalena do Mar, ou seja, quem era Henrique o allemão por altura do povoamento da Ilha da Madeira.



Nota introdutória


MAIS uma vez trago ante Vossas Excelências uma curiosa tradição da minha terra.
De
J. REIS GOMES

A voz do povo madeirense desde há muito afirmou – agora anda a lenda em parte alterada e diluída -que, nos primeiros tempos da colonização da Ilha, aqui se estabeleceu um estrangeiro de estirpe real e vulto histórico de renome, renome derivado, ao mesmo passo, de suas qualidades pessoais, entre elas a Fé, a magnanimidade e a coragem, e dos trágicos sucessos militares, religiosos e políticos em que se achou envolvido.

Esse homem, jovem ainda quando apareceu na Madeira, foi, nesta, senhor dos domínios vastos que formam hoje a infeliz região da Madalena – tão torturada pela fúria das torrentes – aqui constituindo família e morrendo, desastradamente, sob uma quebrada abatida do Cabo Girão, quando do Funchal se dirigia para as terras da sua sesmaria.

Apresentou-se com o nome de Henrique Alemão, nome em que os habitantes sempre viram um disfarce da sua identidade, pois a todos ocultava sua origem, crendo-se que só talvez o donatário então, Gonçalves Zarco que o tratava com «mui particular respeito», conheceria tal mistério.

Os Nobiliários da Ilha dão-no, vagamente, como «um príncipe polaco milagrosamente salvo da Batalha de Varna»; mas a tradição oral, séculos antes formada, apontou-o desde logo como o próprio Ladislau III, o infausto rei da Polónia que, em 2444, se defrontou com Amurate II, da Turquia, e fora por este derrotado nessa memorável batalha, aí desaparecendo – ou morrendo como a história escreveu e propagou. Não o creu assim o povo polaco que durante muitos anos esperou o seu regresso, buscando-o por toda a parte, nem a gente madeirense que, ao tempo, conheceu os factos, de largo eco, que lhe disseram respeito, combinando-os em seu espírito, porventura, impressionável.

Expressamente, o digo: não venho trazer-vos uma documentação histórica, mas explicar apenas, como se formou a insistente tradição a que os nobiliaristas, muito depois, deram um ar menos concreto que não altera, na essência, o que até eles se disse e, com convicção, se acreditou.

É de notar que a lenda – chamemos-lhe assim – não podia gerar-se na alma da gente inculta, pois esta conservava-se, muito naturalmente, ignorante dos sucessos históricos, pormenorizados, em que a mesma se baseia. Com toda a evidência, ela manou de espíritos doutos; e de vozes doutas a ouviria o povo que, pelo tempo fora, a nutriu e lhe deu corpo.

A guerra em que à data se encontrou Ladislau III, tem, pelas suas origens político-religiosas, acentuada semelhança com a catástrofe de Alcacer-Quibir. Como nesta, há o desaparecimento dum rei audacioso e moço impulsionado para a luta – acima de tudo – por cega e ardente fé religiosa.

Ora, os Nobiliários Madeirenses são dos séculos XVIII e XIX; e os seus autores, talvez, por pudor intelectual, não querendo, nem de longe, parecer «sebastianistas», alteraram a tradição – bem que num único ponto – substituindo a figura de Ladislau pela de um incerto príncipe, salvo da cruenta batalha justamente como dela poderia ter saído o heróico e infausto rei – que ninguém, seguramente, viu morrer ou encontrou morto na refrega.

Crendo-se doutos, e com os prejuízos que, não raro, acompanham certos pruridos de cultura, tiveram por prudente afastar-se da crença popular – na sua época, tão mal vista, por insubsistente e grotesca quanto à sobrevivência do monarca português – sem atenderem a que, se os polacos foram de algum modo «sebastianistas», esperando, demasiado tempo, a volta do seu rei,o povo madeirense, esse, deu-lhe como termo de vida, iniludível, o desastre do Cabo Girão…

O texto deste trabalho explica – não digo: justifica – como, conjugando os factos históricos de 1444, na Polónia, com as singulares circunstâncias que cercaram, na Madeira, o senhor da Madalena, nasceu a tradição a que me reporto aqui, tradição que, repito, só pôde partir de pessoas ilustradas com o conhecimento minucioso desses factos.

O respeito, tão particular e tão profundo, que Zarco dispensava a Henrique Alemão; a sua baixela à parte, em casa do donatário – que era quase um vice-rei; as suas relações secretas com o monarca português, que lhe mandou barco especial para o conduzir à Corte; a vinda à Madeira, expressamente, dos monges polacos que lhe reconheceram a identidade; a reserva do Infante D. Henrique e de D. Afonso V, ao evitarem, ambos, o nome dêle na Carta de sesmaria e na confirmação respectiva, tratando-o, apenas, por Cavaleiro de Santa Catarina – o que tudo atestam os Nobiliários – são, entre outros, particulares que se não ajustam bem à condição dum simples e inominado príncipe.

Doutra parte, não é fácil compreender-se o motivo por que este príncipe, que peregrinou, apenas, «em. acção de Caraças por se haver salvo da catástrofe de Varna» – e, portanto, sem quaisquer razões de ordem política ou moral para esconder a sua pessoa e o seu nome – se obstinou, sempre, em negar a sua qualidade, tratando por «loucos» os que o reconheceram na Madeira, ocultando-se tão longe e renunciando a tudo que se ligasse com a sua vida e posição na Polónia, como se tivesse vergonha ou remorso de condenável acção praticada contra Deus ou contra a Pátria.

Isto que não é natural num simples combatente – fosse ele plebeu ou príncipe – salvo duma derrota, é de todo o ponto verosímil, quando à sua figura se substitua no quadro o vulto de Ladislau III, o que ao diante se mostra sob a clara luz da História.

A lenda, incerta embora, estabeleceu-se como se verá sobre presunções e paralelos lógicos, e em factos que seguiram de perto a informação histórica

Poderá parecer por demais desenvolvida em relação ao todo, a primeira parte deste singelo trabalho.

Mas para bem compreender-se, neste ponto, a minha prática, será preciso atentar que a lenda dá a Madeira como a pátria adoptiva desse rei, infortunado mas célebre por suas acções e até por sua própria desgraça, terra que ele elegeu para o seu exílio, onde criou família e uma vida nova, e onde tão lamentavelmente faleceu. Trata-se de personagem do mais interessante psiquismo -cheio de claro-escuro, é certo, – dum monarca poderoso que cingiu duas coroas e em cujos feitos há lances da mais épica grandeza – e, eu, sou madeirense…

Mas outra razão mais forte, por menos sentimental, me impeliu a ir tão longe. Considerei – mal talvez – que essa lenda deixaria de explicar-se, inteiramente, se eu não desse do infeliz monarca suficientes anotações do seu carácter, da sua posição política, das circunstâncias que precederam a Batalha de Varna e a determinaram, dos episódios ocorridos nela e, ainda, dos que se seguiram ao famoso esmagamento das armas polaco-húngaras. Demais, muitos desses episódios factos, coincidências, vaticínios – são indispensáveis para cotejo com o conteúdo de toda a segunda parte, que tanto é dizer: para a inteligência da formação da mesma lenda.

Entre as obras que consultei, escolhi, por mais minuciosa, no período que me interessava, «LA POLOGNE – Historique, Littéraire, Monumentale et Pittoresque», redigida por uma Sociedade de Escritores Polacos, edição de Paris (1836-1837), e que vai referida, a par e passo do texto, nas minhas Notas finais. Segui-a, de preferência, não só por sua particular autoridade, mas por ser o livro de História que mais e melhores elementos me ofereciam para o fim a que eu visava.

Em toda a segunda parte, fazendo-me eco da tradição oral, apoiei-me aos elementos, que fundamentalmente a seguem, constituídos pelos Nobiliários que nas aludidas Notas vão citados.

O pouco de ficção ou de arranjo que há neste trabalho, serviu apenas para dar certa sequência à narrativa, esclarecer, logicamente, alguns lugares obscuros e pôr em evidência – para melhor explicar a tradição vários pontos de especial interesse que, doutro modo, ficariam apagados.

Ainda que não me propusesse, insisto, fixar um facto histórico, – como Vossas Excelências verão, procurei, sempre, respeitar a história e, interpretando-a, cingir-me à letra da tradição escrita.

Quinta Esmeraldo

S. Martinho

Madeira – Outubro-1940

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