PITA, António Luz

Foi o dr. António da Luz Pita talvez o mais abalizado clínico que tivesse nascido em terras madeirenses. No seu tempo, ninguém entre nós lhe contestava a supremacia intelectual em assuntos de medi«ina e cirurgia, e não sabemos que, antes ou depois dele, outro médico mostrasse mais comprovada competência no exercício da clínica. Poderá talvez citar-se o dr. João Francisco de Oliveira, médico de D. João VI, o dr. Julião Fernandes da Silva, autor da Carta Crítica sobre o Método Curativo dos Médicos Funchalenses e ainda o conde de Canavial, que deixaram fama de clínicos abalizados, mas não temos razões para acreditar que se tivessem avantajado ao dr António da Luz Pita, ainda mesmo com relação às épocas em que viveram, especialmente por ele haver sido ao mesmo tempo um grande médico e um habilíssimo cirurgião.

Oriundo de família humilde, nasceu o dr. António da Luz Pita na vila da Ponta de Sol a 2 de Setembro de 1802. Concluídos nesta cidade os estudos secundários dirigiu-se a Montpellier e ali tomou o grau de bacharel em letras em 1826, o de bacharel em ciências físicas em 1827 e o doutoramento em medicina em 1830. No ano seguinte, recebeu o grau de doutor em cirurgia na faculdade de Paris.

Tendo contraído matrimónio em Montpellier com uma senhora das mais distintas famílias daquela cidade, pretendeu em 1833 regressar à pátria acompanhado de sua esposa, quando ao tocar em Gibraltar se convenceu dos graves perigos a que se expunha, entrando num país, onde a guerra civil estava então no seu período mais agudo. Demorou-se em Gibraltar até a convenção de Évora-Monte e aí exerceu com êxito a clínica, tendo, contra a opinião dos médicos ingleses, classificado de cólera-mórbus uma doença suspeita que ali aparecera, cujo diagnóstico se confirmou depois plenamente. Prestou por essa ocasião relevantes serviços, o que levou o governo britânico a conceder-lhe o diploma de cidadão de 1.ª classe, com o direito de residência em Gibraltar, o que então constituía & mais alta distinção com que ali se podia agraciar um estrangeiro.

Na Madeira exerceu os lugares de delegado de saúde e de lente da nossa Escola Médica, em que brilhantemente revelou as altas qualidades do seu espírito. Na qualidade de professor e director do nosso primeiro estabelecimento de instrução, teve que sustentar uma prolongada luta com o dr. João da Câmara Leme, depois Conde do Canavial, homem de carácter e de raros méritos, mas de temperamento violento e conflituoso, que em vários opúsculos atacou duramente o dr. António da Luz Pita, como lente da Escola e também como delegado de saúde do distrito.

O dr. Luz Pita, que entre nós gozava de grande prestígio e influência, representou a Madeira no parlamento nas sessões legislativas de 1851 a 1852 e de 1853 a 1858, advogando com desinteressada abnegação as prosperidades e o engrandecimento da sua terra.

Era deputado e achava-se em Lisboa, quando ali constou que no Funchal começara a grassar a terrível epidemia da cólera-mórbus. Solicitando do governo central os mais imediatos e urgentes socorros, partiu sem demora para a Madeira, no vapor de guerra «Mindelo», a ocupar o seu lugar de delegado de saúde, acompanhado de alguns médicos e enfermeiros, sendo também o portador de unta grande cópia de medicamentos, de muitas roupas, leitos, enxergas, teta, além do crédito extraordinário de seis contos de réis, destinado a ocorrer às primeiras despesas com a montagem dos serviços clínicos e hospitalares. Nele encontrou Gromicho Couceiro o seu mais valioso e eficaz auxiliar, andando o nome do dr. Luz Pita intimamente ligado à memória de aquele benemérito e nunca esquecido governador. Em tão calamitosa época, prestou os mais assinalados serviços como clínico, como chefe dos serviços de saúde, como homem de grande prestígio e influência e ainda pelos prontos socorros que alcançou do governo da metrópole. No meio dessa campanha humanitária em que andava empenhado e inteiramente absorto, veio feri-lo um tremendíssimo golpe — a morte da esposa, D. Ângela Delmas, vitimada pela epidemia.

Como político, sustentou lutas na imprensa com os seus adversários, sendo director e colaborador de alguns jornais, como o Archivista, a Ordem e a Razão. Publicou os seguintes opúsculos: Proposições sobre a vacina, teve inaugural defendida na faculdade de Montpellier; Vantagens da reunido imediata por meio da sutura depois das operações cirúrgicas, tese inaugural sustentada na faculdade de Paris; Excisão do colo do útero, operação feita em Lisboa em 1848; Lições feitas na Escola Médica do Funchal sobre a cólera-mórbus; e Relatório Histórico e estatística sobre a invasão, desenvolvimento e mortalidade da epidemia colérica na Madeira. Escreveu vários relatórios sobre o serviço clínico do hospício da Princesa D. Maria Amélia, alguns dos quais foram publicados, e também uma Nota sobre uma modificação do estetoscópio, lida na academia de medicina de Paria, que não sabemos se viu a luz da publicidade.

Foi um dos membros fundadores da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa e pertenceu a várias sociedades científicas do estrangeiro. Além dos cargos de lente e director da nossa Escola Médica e de delegado de saúde, desempenhou entre nós as funções de presidente da Câmara Municipal do Funchal e de membro da Junta Geral.

Tinha a carta de conselho e várias mercês nacionais e estrangeiras.

Faleceu com 62 anos,  a 23 de Fevereiro de 1870.

Fonte, Elucidário Madeirense, vol. III, (O-Z), pp. 80-81.

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